sábado, 14 de maio de 2011

Churrasco de gente diferenciada - democracia urbana.

Lamento muito que o excesso de trabalho como professor de urbanismo tenha contraditoriamente impedido que eu acompanhasse mais de perto o hit urbano da semana, os movimentos pró e contra a criação da estação do metrô em Higienópolis.

Ao que parece, tudo começou com um projeto da prefeitura para a criação de uma nova estação de metrô no bairro e com algumas declarações de membros da associação dos moradores contra o equipamento que viria "trazer movimento indesejável" para a região. Ora, isso não é novidade nenhuma e grande parte das estações do metrô sofrem resistência por parte ou outra da população que liga o equipamento à degregação urbana. Essas opiniões, além de sustentarem uma segregação velada, estão preocupadas principalmente com o valor dos imóveis. Poderíamos discutir se essa imaginada desvalorização é real ou se é uma mera resistência conservadora, ou se a especulação imobiliária é mais importante do que o direito a cidade. Mas fica pra próxima, o que eu queria falar é outra coisa.

Entre ações e protestos, uma entrevista à Folha de São Paulo trouxe o depoimento de uma moradora do bairro dizendo que uma estação do metrô atrai mendigos e drogados, uma "gente diferenciada". Pronto, estava armado o escarcéu. E na era das mobilizações populares via facebook que parecem pinçar quase aleatoriamente cubos de gelo que se transformam em bolas de neve, o evento "Churrasco de gente diferenciada", a favor da construção, obteve 50 mil confirmações de presença. É o poder do povo.

No meio do embate, a prefeitura mudou de planos por alegar questões técnicas de distância de menos de 600 metros entre duas estações, o que é verdade. A estação, ao que parece, será transportada para a praça Charles Miller, em frente ao Pacaembu.

O que me interessou nesse caso não é a segregação ou a valorização imobiliária, o direito à cidade ou o churrascão. Fiquei maravilhado com a discussão em torno da cidade, algo que aparece muito menos do que as eliminações do BBB ou o casamento do príncipe William. Não sou, de maneira alguma, contra a manifestação de quem quer que queira rejeitar a estação do metrô no bairro. E nem de quem é a favor. E digo mais, se a população contrária for representativa numericamente, isso deve sim ser considerado pelo sistema gestor municipal.

Dia desses assisti a um documentário sobre o Elevado Costa e Silva, o Minhocão. Tido dentro das aulas de urbanismo como um monstro malufista, um absurdo urbano, um câncer rodoviarista, já foi alvo de inúmeras propostas de fechamento, retirada, demolição ou transformação. O fato é de que, da prancheta para cá, ninguém quer o Minhocão ali. Mas o que o documentário mostra é que as pessoas do bairro entrevistadas adoram o elevado e se arrepiam de ouvir falar em sua retirada ou demolição. Não é que o monstro rodoviarista tem coração?

Os anos passam e o metrô de São Paulo se torna um problema cada vez maior. A cidade cresce expoencialmente e as linhas paulistanas, as mais lotadas do mundo, não são maiores do que o sistema, por exemplo, de Santiago do Chile, uma cidade MUITO menor. Comparar com uma metrópole européia, por exemplo, é ridículo. E além de tudo, São Paulo tem um sistema burro que centraliza todas viagens na praça da Sé enquanto o tatuzão continua cavando os anéis periféricos. Cava, cava, cava, mata gente, cava... Depois cava mais... Além disso, o tatuzão gosta de cavar muito mais nos bairros ricos do que nos bairros pobres. É só ver a distribuição dos metrôs de SP e ver que ele não gosta muito de ir atrás da "gente diferenciada", da Zona Leste, das periferias ou das cidades da grande São Paulo onde, no máximo, chega o trem. O metrô de SP é um equipamento para os ricos.

Enfim, o debate está aberto. E é com muita alegria que vejo a população brigar, de lado a lado, pelo lugar onde vivem.