sábado, 26 de março de 2011

O taxista argentino


Quase saindo de Buenos Aires, depois de jantar, resolvi tomar um taxi até a rodoviária onde estavam guardadas as minhas malas e de onde eu teria que sair para o aeroporto. Mesmo sendo fácil conseguir um taxi por ali, tentei 3 ou 4 antes que um deles estivesse livre.

Entrando no taxi, pedi o destino. O taxista começou a puxar papo até descobrir que eu era brasileiro. Disse que tinha me passado por latino americano, mas não por brasileiro (essa minha cara de qualquer coisa). Eu disse que tinha ido a Rosário e ele respondeu que não ia para lá a 8 anos pois só trabalhava o ano todo, mas que não reclamava porque ao menos tinha um trabalho.

Então o homem contou sobre a crise argentina de 2001. Disse que não havia emprego, dinheiro ou casas. Disse que morou na rua com sua família, passou fome. Teceu sua história. Contou dos filhos, um universitário e um menino que quer ser jogador de futebol.

Sempre me lamento por não falar bem o espanhol ou o inglês, o que dificulta muito que eu converse com as pessoas nas minhas viagens. Ainda assim, lembro com carinho da Gabriela, a moça equatoriana que trabalhava no hostel em Istambul, da Mônica, a amiga argentina que encontrei tantas vezes no caminho até Machu Picchu, da senhorinha francesa do hotel de Belfort, na França, ou do professor que me parou nas ruas de Pisa para dizer que gostava do Brasil. Ou da Kruskaya, a menina boliviana com quem dancei no Hard Rock em La Paz, ou do casal Darwin e Coni, chilenos que dividiram comigo um porre histórico no Rumba Chiva em Cartagena. Ou a senhora Juraci e os portugueses amigos que me convidaram para um excelente jantar em Lausanne (o melhor que comi em um mês), ou, ali também, o urbanista francês que já tinha ido pra Chandigard. Ou o casal de senhores baianos com quem assisti ao show de tango no Café Tortoni, a Paula que passeou comigo por Madrid, e o suíço que me contou em Lisboa que já tinha feito o caminho de Santiago de Compostela e a Natália, a bonita professora-arquiteta argentina que está de malas prontas para trabalhar um ano na Nigéria, onde o melhor e o pior é que tudo é possível. A lista é imensa. E sem falar na sociedade do anel que se conheceu no trem e foi firme até Machu Picchu, da Renata, amiga prudentina que encontrei nas ruas de Florença, da Érica e do Klaus, meus companheiros de viagem que compartilharam tudo isso comigo.

A rodoviária chegou para mim antes do emprego de taxista chegar na história, que já tinha se enveredado pelos talentos futebolísticos do caçula. Apertei a mão dele agradecido, pela amizade e pela história, e por lembrar que viajamos, na verdade, para conhecer a nós mesmos. Ao melhor estilo hispanoamericano, ele me desejou suerte, e eu antes de sair do taxi fiz um pedido: boa sorte ao seu filho, mas que nunca marque um gol contra o Brasil...

Ele riu.

Eu e meus amigos baianos no Café Tortoni em Buenos Aires