domingo, 18 de julho de 2010

O pêndulo de Foucalut

Essa viagem de 24 horas num ônibus entre Santiago e San Pedro do Atacam me fez praticamente encerrar, tarefa que foi completada em poucos dias seguintes no deserto, a história complicada de Causabon, Belbo e Diotallevi, editores italianos que de tanto receberem livros de autores mirabolantes sobre sociedades ocultas, segredos revelados e teorias conspiratórias secretas acabam sendo encarregados de organizar uma coleção de bobagens místicas para a editora em que trabalham. Um desses autores, Ardenti, fala sobre um plano dos templários para a dominação do mundo que duraria uma centena de anos e estaria pronto para ser completado. No entanto, após apresentar seu livro aos editores, Ardenti desaparece misteriosamente do hotel onde se hospedava.

A partir da idéia inicial de Ardenti, os editores elaboram, por brincadeira, o Plano templário em sua totalidade. Neste ponto, a pesquisa de Umberto Eco, esse gênio, é impressionante. O "Plano", como eles o chamam, passa a envover não apenas os templários, mas a Rosa-Cruz, Sheakspeare, Napoleão, os jesuías, e uma infinidade de grupos, seitas, personagens e fatos históricos, todos colocados agora como parte de uma cosnpiração universal. Procurando, e muitas vezes criando, relações entre fatos e mesmo frases desconexas, os três começam a levar o seu plano tão a sério que acabam por vê-lo realizar-se de algum modo, transformando a vida de cada um e deixando em dúvida (nossa e deles) o que é realidade, o que é imaginação, o que é pura e simples paraóia.

Há alguns dias me perguntaram sobre esse livro e eu o defini como "um Código da Vinci com pós-doutorado". É exatamente isso. Enquanto Dan Brown usa seu livro para dar às pessoas exatamente o que elas querem, uma conspiração, Eco usa uma conspiração para nos dar o que precisamos, mas não queremos: um tratado sobre a nossa fé, sobre a fragilidade do nosso universo e sobre a nossa cegueira ao claro, ao simples e ao elementar. Mais ainda, sobre a realidade que sequer existe, mas que também não passa de uma construção nossa, seja ela qual for.

Encontrei, inclusive, na Wikipédia, uma frase interessante de Umberto Eco sobre essa relação com Dan Brown:
Eu inventei Dan Brown. Ele é um dos personagens grotescos do meu romance que levam a sério um monte de material sobre ocultismo. O Pêndulo de Foucault projeto brinca com teorias cospiratórias e teve início com uma pesquisa entre 1.500 livros de ocultismo reunidos por seu autor. Ele [Dan Brown] usou grande parte do material. Em "O Pêndulo de Foucalt", eu havia inserido um bom número de ingredientes eotéricos que podem ser encontrados no Código da Vinci. Os meus personagens, ao elaborarem os seus projetos, levam em conta a importância do Graal, por exemplo. Eu quis fazer uma representação grotesca daquilo que eu via em volta de mim, de uma tendência da qual eu previa o crescimento. Era fácil fazer uma profecia como esta. Ao pesquisar para escrever "O Pêndulo de Foucault", eu esvaziei todas as livrarias que já se especializavam nessa "gororoba cultural". Dan Brown copia livros que podiam ser encontrados trinta anos atrás nos sebos da Rua de la Huchette, em Paris. O sucesso pode ser explicado pelo fato de que as pessoas são sedentas por mistérios.
E como diz uma frase do próprio Código da Vinci, "as pessoas adoram uma conspiração".