sexta-feira, 30 de julho de 2010

Muito longe de casa

Quando eu vejo algum programa de TV, desses de barraqueira, eu quase sempre duvido que sejam atores e que aquela história não seja real. Na verdade, esse pessoal da periferia tem um jeito de brigar dando risada que um ator não conseguiria fazer tão bem a caricatura.

Eu me lembrei disso ao ler a história de Ishmael Beah pela forma simples com que ele escreve. Ora, eu tinha acabado de sair do Umberto Eco, extremamente prolíxo, e caído num texto quase infantil de um menino africano. A diferença é que Umberto Eco compõe uma obra de arte sobre histórias que ele nunca viveu enquanto em Muito longe de casa Ishmael conta sem arte coisas que ele próprio viu, viveu e, principalmente, fez.

O livro conta a adolescência de Ishmael passada no meio da guerra civil em Serra Leoa, dividida entre um ditador golpista e rebeldes igualmente sanguinários. Depois de escapar acidentalmente de um ataque que destruiu sua aldeia, Ishmael passa meses fugindo da guerra cruzando boa parte das aldeias e das florestas de Serra Leoa a pé, até ser capturado pelo exército governista e ser transformado em um menino-soldado, tomando lugar nas frentes de batalha.

Algumas coisas me chamaram a atenção. A primeira é que, a questão política - ditadura, golpe, revolução, eleição, direita, esquerda, rebeldes, causa - não chega em absoluto na ponta da guerra. Ninguém sabe porque está lutando, ou sabe, para vingar a destruição de sua casa, sua aldeia e a morte de sua família. Fazem isso destruindo outras casas, aldeias e famílias, o que faz com que o argumento seja o mesmo para ambos os lados. Além disso, basicamente invadem as aldeias que encontram pela floresta para roubar drogas, munição e, principalmente, comida, criando um ciclo interminável: matam e roubam comida para poder continuar caminhando até a próxima aldeia para matar e roubar mais comida.

Essa psicologia da guerra me fez compreender melhor o que talvez possa acontecer, em certa medida, com um menino do tráfico, por exemplo. Toma aqui essa arma e vai matar aqueles que mataram seu pai, ou tomar daqueles que te humilham na rua, que cospem em você, que te olham de cima porque você é preto, pobre e favelado. Agora você pode, você tem uma arma. Você não iria? E não sei dizer... Mas no mínimo a gente compreende porque é que alguns aceitam.

A segunda coisa que me chamou a atenção foi a presença dos voluntários da ONU. Se em Gostaríamos de informar que amanhã seremos mortos com nossas famílias a presença das forças de paz é tida como desastrosa em Ruanda, no caso de Serra Leoa ela parece ser frágil, mas válida. São esses voluntários que "compram" o menino Ishmael e o levam para um centro de recuperação. No entanto, tirado da guerra no dia anterior, os meninos continuam a se comportar com se estivessem nela: batem nos voluntários, lutam entre si, roubam, ameaçam. A guerra continua dentro deles. Certo tempo eu tive vontade de ser voluntário da ONU, mas não deve ser coisa fácil.

Finalmente, me chamou a atenção a capacidade física e de sobrevivência de Ishmael. Ele diz coisas como "a aldeia ficava a dois dias de distância". Se eu tivesse que andar dois dias pra chegar em algum lugar... Sem água ou comida. Em certo momento ele passa meses na floresta, sozinho, comendo cocos. Isso talvez seja pior do que matar para sobreviver. Em todo o caso, é uma coisa que espero jamais descobrir...

Leitura recomendadíssima.