segunda-feira, 14 de junho de 2010

Caso de Futebol

E já que o assunto por todos os lados é a Copa, ressuscito um conto meu, antigo, sobre o assunto.

- Mas Carlão, todas essas suas fotos de futebol, em cada uma você está em uma torcida diferente!

- O mundo dá voltas...

- Mas qual é o seu time afinal?

- Eu nasci atrás do Palestra Itália. Família italiana, papai era sócio do Palmeiras, freqüentávamos o clube. Domingo era dia de jogo e depois do macarrão descíamos a rua de bumbo, corneta e camisa do verdão.

- E o que aconteceu?

- Ta vendo essa foto? Era dia do meu aniversário e o Palmeiras ia jogar em Goiás. Eu tinha 10 anos e nunca tinha viajado pra tão longe. Pedi, insisti, briguei, até que meu pai resolveu me levar.

- Até Goiás?

- Até Goiás. Uma cidadezinha do interior. Era um jogo fácil e eu estava esperando a goleada para comemorar os meus anos. A viagem foi dura, 23 horas de carro. 25 por um pneu furado. 30 horas, já que papai se perdeu em Minas Gerais.

- E quanto foi o jogo?

- Chegamos atrasados, no final do primeiro tempo. Estava esgotado, mas feliz. Botei o pé no estádio esperando que já estaríamos vencendo, mas qual... Foi sentar na arquibancada e não é que os goianos nos meteram um gol de cabeça?

- Pé frio...

- Se fosse só por isso... Naquele dia choveu bola no gol. Levamos gol de cabeça, de pênalti, de falta, gol contra. Gol de tudo o que é jeito. A torcida delirava enquanto eu me encolhia no meu lugar. O jogo nem terminara e eu já tinha tirado a minha camisa. Queria vingança por aquela vergonha. Nunca mais torci para o Palmeiras.

- Virou a casaca?

- Virei. Virei corintiano fanático, para desespero da minha família. Dizem que meu avô morreu por conta disso. Sabia toda a escalação, todos os títulos. Entrei para a Gaviões...

- Não acredito que você foi capaz de fazer isso...

- Eu fui. E nada me dava mais prazer do que vencer o verdão. Criei raízes no Pacaembu. Fazia festa, arrumava briga, ia aos treinos. Mas durou pouco.

- Abandonou a fiel também?

- Eu não. Foi ela quem me abandonou. Na saída de um jogo,de frente pra Independente... Apanhei que nem um cão naquele dia e troquei de time.

- De novo?

- De novo. Traição com traição se paga. E dessa vez queria ir mais longe. E eu fiquei imaginando qual seria a maior infidelidade possível. Abandonei o futebol paulista e passei pro lado de lá do muro. Cruzei o vale do Paraíba e acabei no Maracanã. Uma vez Flamengo, sempre Flamengo!

- Você torce pro Flamengo?

- Torci. Mas não torço mais. Depois que eles venderam o meu ídolo Paulinho Tarraqueta para o Vasco, fiquei furioso e virei Fluminense. Depois disso, trocar de time, trair as flâmulas, virou um vício que eu nunca mais pude evitar. Passei para o Botafogo, Bahia, Vitória, Grêmio, Inter, Londrina... Até que apliquei o meu grande golpe! Traí todos os clubes, grêmios e associações ao mesmo tempo: troquei de esporte, virei basqueteiro!

- Mas então o que é que você está fazendo aqui? Nós vamos ver a Copa do Mundo! Estamos nesse avião pra isso! Nós vamos ver a seleção!!!

- Pois é. Mas eu vou torcer para a Argentina...