quinta-feira, 13 de maio de 2010

Operação Parceria


É pouco provável que você tenha visto, ou tenha dado muita importância, a mais uma operação da Polícia Federal que prendeu 11 suspeitos de desviar 300 milhões de reais de repasses do governo para uma ONG educacional em Londrina. Foram presos nessa operação o dono da Faculdade Inesul, Dinocarme de Lima, e um diretor da ONG, Juan Carlos Monastiero.

Mas quando um amigo meu me deixou um recado com essa notícia, quase caí de costas. O problema é que eu conheço essas duas figuras, uma indiretamente e a outra diretamente. Entre 2004 e 2005 eu estagiei e trabalhei no escritório de arquitetura da então esposa desse Juan, Andrea Torchi. Inclusive, a minha indicação para a vaga de estagiário veio de um professor amigo deste Juan, um arquiteto para quem, embora eu seja grato e admirador sincero, eu não emprestaria dinheiro. Esse professor participava de muitas licitações públicas, e de todos os rolos e tramóias que a atividade exige. Imagino que daí venha sua amizade com o Juan, um cara falastrão, meio agitado, arrogante, mas inteligente, sempre metido em política. Como não tinha escritório (o escritório dele era dentro do carro), várias vezes usou o nosso para marcar umas reuniões um tanto suspeitas. Como o escritório era grande, sentava em uma salinha com o secretário de não sei o que de não sei onde, o prefeito não sei o que lá, e a gente só via o trancetê.

O Juan era um lobista. Lobista é um cara extremamente bem relacionado politicamente que usa esta boa relação para fazer o maior número de trambiques possível. Se você quer fazer um trambique e não sabe como, o lobista é o profissional que te leva para conversar com as pessoas certas, com o político certo, com o secretário certo. E fica com uma parte do seu trambique. O incrível é que, no Brasil, "lobista" é uma profissão oficial, a não ser que eu esteja enganado sobre uma conversa que ouvi esses tempos atrás sobre a questão. Lembra quem pagava as contas da amante do Zé Dirceu? Era um lobista.

Pois era isso que o cara fazia. A gente sabia, mas tinha que fingir que não sabia. Ou não sabia, mas intuía. Na época da eleição para prefeito de 2004, o Juan estava metido na campanha. Ele era, que eu me lembre, do PSDB. Lembro que fiquei com medo de que ele me pressionasse a votar ou nos convocasse para fazer campanha, coisa que eu não ia admitir. Mas não disse nada.

No começo de 2005 o escritório andava meio mal, até que apareceu um projeto imenso: o novo campus da Inesul. O pedido tinha sido feito via Juan, que era amigo do dono da faculdade, o Dinocarme. Fizemos um estudo com bloco de salas de aula, biblioteca, teatro, capela, quadra e piscina. Depois de terminado, o Juan ficou de apresentar o projeto para o Dinocarme em uma reunião que não era marcada nunca. Uns dois meses depois, como a coisa não andava e a gente não recebia, a Andrea pagou o combinado pelo estudo pra gente, dizendo que o Juan havia adiantado aquele dinheiro para nos ajudar. Só depois que deixei o escritório é que entendi o que havia acontecido. Não havia projeto e nem reunião com o Dinocarme. O próprio Juan deve ter encomendado aquilo apenas para manter a esposa ocupada, brincando de escritorinho de arquitetura. Tanto que a Inesul nunca construiu um novo campus. Faz sentido, mas não sei se é verdade.

Outra coisa que eu fiquei com muito medo na época foi por um companheiro de escritório. Ele alugou uma casa bem próxima ao escritório e, como não tivesse fiador, o Juan ofereceu-se para assinar a papelada. E assinou. Mas a frase do Juan era "se você me deve um favor, pode contar que eu vou cobrar". Estou certo que o plano era devolver a assinatura em um trambique qualquer, fazendo esse amigo de laranja. Que eu me lembre, houve uma movimentação nesse sentido, mas acho que acabou não acontecendo.

Depois desse fato, apareceu um outro projeto público: um ginásio de esportes e a prefeitura duma cidadezinha lá, não lembro. Como eu apenas fazia os projetos, não sabia quais eram os rolos, mas sabia que havia algum. Neste caso, alguém da prefeitura ia levar alguma propina (que a Andrea chamava de "bola"). Depois que eu saí do escritório, liguei para cobrar o pagamento deste projeto. A Andrea argumentou (acho que neste dia foi ela quem me ligou) que o dinheiro estava demorando, que era normal, e me perguntou: "você sabe que nós demos 'bola' para o fulano, não sabe?" Eu tenho certeza que ela estava gravando aquela conversa, que tinha medo de que eu denunciasse alguma coisa. É claro que eu não teria como fazer isso, não sabia quem tava pagando propina pra quem, esse contato nunca passava pela gente. Mas acredito que ela estava gravando a conversa para que eu respondesse "sim" e me incriminasse. Na hora, só fiz "ham". Depois me senti mal com essa situação.

Uma das últimas lembranças que tenho dele foi numa pizzaria. Não que na época eu tivesse dinheiro para ir a pizzarias, inclusive porque o escritório ficou séculos sem me pagar. Mas ele nos convidou e nós fomos. No meio da conversa, explicou como fazia para roubar os amigos desde cedo. Sempre que saía com um grupo, na hora de pagar a conta se oferecia para dividi-la, mas não se colocava na divisão. Ninguém percebia, ele recolhia o dinheiro, entregava ao garçom e ia embora sem pagar nada. E ainda ficava com o troco. Esta história nunca me saiu da cabeça, como alguém podia ser desonesto assim com os amigos? Bom, pelo visto, se a PF chegou até a porta dele, os amigos dele também não eram tão santos assim. Mas na cadeia ele vai ter a oportunidade de fazer muitos amigos novos. Bom proveito.