quinta-feira, 22 de abril de 2010

Guia politicamente incorreto da história do Brasil

Toda (tá, toda é muita gente) nação ou sentimento nacionalista se constrói a partir de personagens que diferenciem uma país do outro. Se os americanos são tão legais, porque não viramos logo um deles? Eles tem o Mickey Mouse, o Michael Jackson, o Waldisney! Bom, porque nosso país também é legal, a gente teve Leornardo da Vinci, ou Napoleão, ou Gardel, dependendo se você for italiano, francês ou argentino (mesmo Gardel sendo uruguaio). Se você for brasileiro pode dizer que tivemos Alberto Santos Dumont, Luís Carlos Prestes ou Zulu, dependendo se você é engenheiro, comunista ou ativista racial. Ou Aleijadinho, se você for arquiteto.

O que o guia tenta mostrar (e muitas vezes consegue), é como esses personagens passaram de pessoas a mitos, num processo geralmente guiado para a consolidação deste nacionalismo, para a criação dos heróis nacionais que são pessoas, normalmente, com méritos próprios, mas nem de longe os super-heróis que a historiografia faz crer.

Tenho comentado alguns pontos do livro com pessoas diferentes. "Zulu tinha escravos". Todo o mundo aceita essa idéia. "O desfile das escolas de samba é uma parada militar com samba". Até vai. Agora, quando digo que "Santos Dumont não inventou o avião". Ah, daí o bicho pega.

Incrível a força do Santos Dumont no nosso imaginário. No entanto, o autor do guia é bastante convincente ao descrever como os americanos irmãos Wright já tinham inventado um avião muito mais eficiente - e que podia SIM decolar com motor próprio, sem rampa de lançamento - enquanto o 14 BIS dava seu vôo de galinha na Torre Eiffel. Pouca gente sabia porque os Wright queriam primeiro patentear sua invenção, com medo de serem roubados. Santos Dumont nunca patenteou suas invenções. Ele era rico. Mas os Wrights eram bicicleteiros e já estavam negociando inclusive a venda de suas máquinas para o exército americano enquanto a patente ainda estava em trâmite. Daí Santos Dumont venceu seu famoso prêmio na França, ou um prêmio de consolação já que conseguiu voar apenas 20 metros e não 1 km como pedia o prêmio principal. Enquanto isso a máquina dos Wright voava por meia hora seguida.

Não que isso faça diferença também. Aliás, conta que Dumont era o maior balonista do mundo, inventou o dirigível e o seu avião posterior, o Demoseille, foi o precursor do ultraleve. Mas de avião, avião mesmo, o 14 BIS não tem nada.