sábado, 20 de fevereiro de 2010

Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias.


Ao contrário do que faço normalmente quando comento algum livro aqui, dessa vez não vou colocar a capa do dito aí ao lado. Colocarei a foto de um hotel. Já explico.

Este é o hotel Milles Collines, o maior e mais luxuoso hotel de Kigali, capital de Ruanda, na África. Durante os anos 90, o Milles Collines era gerenciado por Paul Rusesabagina, um ruandês da etnia tutsi. Tutsis e hutus são duas etnias que compõe quase que a totaliadade da população de Ruanda. Os hutus são a maioria, os tutsis, a minoria.

Embora o convívio entre tutsis e hutus fosse historicamente pacífico, a colonização européia tratou de eleger a minoria tutsi como a classe dirigente de Ruanda, e os hutus como os operários. Essa oposição - que não existia antes da presença européia - colocou tutsis e hutus em conflito. Este antagonismo sobreviveu à independência do país, um dos mais pobres da África.

Durante os anos 90, a chegada ao poder de um ditador miliciano hutu desencadeou um massacre de tutsis ruandeses por parte dos hutus. Um genocídio, o maior desde a segunda guerra (na verdade, numericamente superior ao extermínio de judeus na Alemanha). Muitos milhares de tutsis foram mortos sob os narizes e olhos complacentes do ocidente e da ONU. Na capital Kigali e em todas as regiões do país, hutus matavam tutsis, inflamados pela propaganda do governo, apenas pelo fato de serem tutsis. Vizinhos matavam vizinhos, professores matavam alunos, padres e pastores matavam seus fiéis. Bastava que fossem tutsis. Isso em 1994.

O único refúgio tutsi que permaneceu milagrosamente inviolado durante o genocídio foi o hotel de Paul, o Milles Collines. Durante meses, Paul e seus refugiados viveram no hotel, dividindo os quartos e tomando água da piscina. Mesmo após a contra-revolução de milicias tutsis, no auge da guerra que atingiu também os vizinhos Burundi e Zaire, o Milles Collines permaneceu fortificado, salvando vidas que a ONU não foi capaz de salvar. A história e os motivos é o que Philip Gourevitch conta no livro Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias, um longo relato jornalístico sobre o genocídio que destruiu um país com o qual "ninguém se importa", Ruanda.