domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mindlin


Faleceu hoje o bibliófilo José Mindlin, referência cultural brasileira, dono da maior biblioteca particular do país (doada ano passado à USP) e um velhinho bonzinho. Sei pouco sobre ele, uma vez que recebia muito menos atenção da mídia do que, por exemplo, a Preta Gil. Mas o que me ficou na lembrança foi uma passagem de uma entrevista em que o vovô Mindlin contava uma conversa que teve com sua netinha pequena.

A menininha perguntou pro avô: quem era o seu avô? Mindlin respondeu que não sabia, que quando ele nasceu seus avós já tinham morrido e que nunca havia conhecido seu avô. Ao que a netinha respondeu.

- Você não conheceu o seu avô? Você não sabe o que perde...


sábado, 27 de fevereiro de 2010

Olé...

Diz a lenda que Garrincha, o maior de todos os dribladores, não contente em driblar um zagueiro muitas vezes parava a bola, voltava e driblava o mesmo coitado de novo. A jogada fazia a delícia do público mas, acredito, não a do zagueiro. Agora você imagina...

Imagine que você é o zagueiro, jogando contra o Garrincha. Imagine que ele pegou a bola, veio pra cima de você, colocou a bola entre as suas pernas (no bom sentido). "Ah, mas na próxima oportunidade ele não passa!", é o seu pensamento. Acontece que ele volta imediatamente e dessa vez te deixa sentado no chão. O que você pensaria dessa vez?

Talvez você pudesse desejar que ele voltasse e tentasse de novo, já que você tem certeza que dessa vez ele não vai conseguir repetir o drible, nem que você tenha que mandá-lo para o hospital. Ou então, talvez desejasse que, pelo amor de Deus, o Mané desse prosseguimento no lance e te poupasse desta nova humilhação. "De novo não, já chega..."

Imagina só...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O andar do bêbado


Estava contando à minha tia (não sei como a conversa chegou ali) sobre um conto que comecei a escrever (e não terminei) há tempos atrás. Se tratava de um mágico que convidava um senhor da platéia para um número e pedia que ele retirasse do baralho "uma carta, QUALQUER CARTA aleatoriamente". No entanto, o senhor respondia que essa tarefa seria para ele muito difícil, uma vez que, sendo destro, tendia a retirar uma das cartas da metade direita do leque e, sendo bastante conservador, tinha pouca chance de retirar, por exemplo, a carta da ponta. Por tanto, retirar uma carta aleatoriamente lhe parecia uma tarefa muito difícil, argumentando de tal modo que o próprio mágico acabava por abandonar o número e a profissão. Coincidência ou não, ela estava lendo exatamente um livro sobre o tema da aleatoriedade, passou na livraria e me trouxe de presente.


O subtítulo "Como a aleatoriedade afeta nossas vidas" parece meio auto-ajuda, mas na verdade a maior parte de "O Andar do Bêbado" é um curso rápido de estatística fundamental. Um curso muito interessante, misturando história, vida de cientistas e casos cotidianos (contei a uns posts atrás a história do programa de TV com 3 portas). Isso posto, daí sim, o último capítulo trata de como acontecimentos fortuitos podem influenciar a nossa vida e de como não consideramos esses acontecimentos no momento de julgar as habilidades de alguém (ou nossas) com base no sucesso ou no fracasso que tiveram. E pensando bem, isso é bem fácil de entender.

Eu mesmo, quando deixei o meu currículo na Unoeste, comentei que trabalhava em meu antigo emprego com uma aluna do curso. Pois não é que quando a vaga apareceu a coordenadora do curso tinha perdido o meu telefone e só conseguiu falar comigo porque eu tinha comentado que trabalhava com essa aluna? Por sorte ela se lembrou desse comentário. Quem me avisou sobre o mestrado em Florianópolis, que acabei cursando, foi uma amiga que estudava na UFSC e viu um cartaz, por acaso, no restaurante universitário. E pensando pra trás, quase tudo o que me aconteceu teve pelo menos um fator aleatório que podia simplesmente não ter acontecido. Agora, por outro lado, se eu consegui tantas coisas boas por um motivo aleatório como esses, imagina quantas eu não perdi por um triz...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Vá se catar

Meu objetivo de vida é aprender a dizer "Vá se catar" em todos os idiomas do mundo.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias.


Ao contrário do que faço normalmente quando comento algum livro aqui, dessa vez não vou colocar a capa do dito aí ao lado. Colocarei a foto de um hotel. Já explico.

Este é o hotel Milles Collines, o maior e mais luxuoso hotel de Kigali, capital de Ruanda, na África. Durante os anos 90, o Milles Collines era gerenciado por Paul Rusesabagina, um ruandês da etnia tutsi. Tutsis e hutus são duas etnias que compõe quase que a totaliadade da população de Ruanda. Os hutus são a maioria, os tutsis, a minoria.

Embora o convívio entre tutsis e hutus fosse historicamente pacífico, a colonização européia tratou de eleger a minoria tutsi como a classe dirigente de Ruanda, e os hutus como os operários. Essa oposição - que não existia antes da presença européia - colocou tutsis e hutus em conflito. Este antagonismo sobreviveu à independência do país, um dos mais pobres da África.

Durante os anos 90, a chegada ao poder de um ditador miliciano hutu desencadeou um massacre de tutsis ruandeses por parte dos hutus. Um genocídio, o maior desde a segunda guerra (na verdade, numericamente superior ao extermínio de judeus na Alemanha). Muitos milhares de tutsis foram mortos sob os narizes e olhos complacentes do ocidente e da ONU. Na capital Kigali e em todas as regiões do país, hutus matavam tutsis, inflamados pela propaganda do governo, apenas pelo fato de serem tutsis. Vizinhos matavam vizinhos, professores matavam alunos, padres e pastores matavam seus fiéis. Bastava que fossem tutsis. Isso em 1994.

O único refúgio tutsi que permaneceu milagrosamente inviolado durante o genocídio foi o hotel de Paul, o Milles Collines. Durante meses, Paul e seus refugiados viveram no hotel, dividindo os quartos e tomando água da piscina. Mesmo após a contra-revolução de milicias tutsis, no auge da guerra que atingiu também os vizinhos Burundi e Zaire, o Milles Collines permaneceu fortificado, salvando vidas que a ONU não foi capaz de salvar. A história e os motivos é o que Philip Gourevitch conta no livro Gostaríamos de informá-lo que amanhã seremos mortos com nossas famílias, um longo relato jornalístico sobre o genocídio que destruiu um país com o qual "ninguém se importa", Ruanda.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Mr. Bean

É impressionante a minha capacidade de transformar tarefas simples como trocar uma lâmpada em uma epopéia hercúlea.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

É segredo!

E a Unidos da Tijuca levou o carnaval do RJ esse ano. Coincidentemente, foi a única escola que eu assisti. Fantástico Paulo Barros, o carnavalesco que inventou o carro alegórico cheio de gente num ano, que botou a bateria em cima do carro alegórico no outro, e que agora fez mágica na comissão de frente.

Agora, você imagina se esse cara, junto com uma Débora Colker, pega pra fazer a abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Junto com os caras de Parintins! Já pensaram 5 ou 6 baterias inteiras juntas fazendo paradinha no Maracanã?

Fica a idéia...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Porta da esperança

Comecei a ler um livro bem interessante sobre o aleatório, a aleatoriedade em nossas vidas e em como o nosso cérebro não trabalha bem com a incerteza e a possibilidade. Para tanto, dá antes algumas aulinhas de cálculo de probabilidade.

Eu sempre gostei de desafiar meus neurônios com o que quer que fosse, de palavras cruzadas a geometria. A sensação de entender algo que era misterioso é maravilhosa. Pois no livro, o autor conta o seguinte caso: Imagine um programa de TV em que há 3 portas. Uma delas esconde um carro e nas outras duas não há nada. O participante escolhe uma das portas, por exemplo, a porta A. Então, o apresentador que SABE onde está o prêmio, manda abrir uma das cortinas não escolhidas onde ele sabe que não há nada, por exemplo, a porta B. Com as duas portas restantes ainda fechadas, o apresentador pergunta se o participante quer manter sua escolha ou prefere trocar de porta. Neste caso, o que seria melhor para o participante? Manter a escolha, ou trocar de porta?

Bom, se são duas as portas e um prêmio apenas, a possibilidade de que ele esteja atrás de uma ou de outra é de 50% para cada, certo? ERRADO. Uma colunista americana (que está no livro dos recordes como o maior QI do mundo) respondeu a uma carta em sua coluna que propunha essa situação dizendo que se o participante trocasse de porta ele teria 2x mais chances de ganhar o prêmio... Mas como pode ser?

É ao mesmo tempo óbvio e difícil de entender. O problema está no papel do apresentador, que não pode ser desprezado. Vejamos. A chance inicial do participante de acertar a porta com o carro era de 1/3, já que eram 3 portas. É evidente que, das duas portas não escolhidas, pelo menos uma delas estará vazia e a questão é saber se ambas estão vazias ou se uma tem um carro atrás. Muito bem. Quando o apresentador revela propositalmente que na porta B não há nada - ele já sabia disso, está dizendo uma coisa que já sabíamos - que em pelo menos uma das portas não há nada - e outra que não sabíamos - se tivermos errado o nosso chute inicial (A), a porta correta era a (C).

Pois bem. A nossa chance inicial de acertar era de 1/3, e de errar, 2/3. Ao contrário do que possa parecer, exatamente porque é claro que atrás de uma das duas portas preteridas não havia nada, isso não se altera após a porta B ser aberta. Contínuamos com 1/3 de chance de ter acertado e com 2/3 de chance de ter errado. É mais fácil ter errado... Porém, como só resta a porta C fechada, ela representa as possibilidades de todas as não escolhidas, ou 2/3. Portanto, é melhor trocar de porta (chance de 2/3) do que permanecer na mesma (chance de 1/3).

Parece que na época essa colunista foi execrada pelo público e pelos matemáticos. É estranho, mas ela está certa. É mais fácil de entender se você imaginar que são 100 portas. Escolhemos uma (chance de 1/100) e então o apresentador vai abrindo todas as que ele SABE que não tem nada (esse SABE é fundamental). Das 99 que você não escolheu, ele abre 98, deixa uma fechada e te pergunta se você quer trocar. Se você quiser ter 99% de chance de ganhar um carro, é bom aceitar...