domingo, 31 de janeiro de 2010

10 observações sobre Turquia e Grécia - parte 1


É claro que não sou arquiteto - se é que sou - apenas em horário comercial, e todo o profissional que estuda alguma coisa tem seu olhar treinado para procurar, em qualquer lugar, exatamente o que é de seu interesse. No meu caso, a arte e, especificamente, a arquitetura.

Uma das questões importantes da minha profissão é a do ornamento. E a história da arquitetura parece balançar eternamente entre a geometria da forma pura - o clássico, o gótico, o modernismo - e a exuberante manifestação decorativa - o barroco, o ecletismo e, de certa forma, o pós-moderno.

Há uma diferença clara entre essas posturas refletidas no meu cotidiano. Dentro do curso de arquitetura, a forma pura, mais racional, é quase sempre a preferida. Por vários motivos: influência dos professores, justificativa intelectual e nível de detalhamento de projeto que poucas vezes (nunca) chega ao projeto de interiores. Do outro lado, no curso de Design de Interiores, o gosto pelo ornamento é sensivelmente maior. Outros são os motivos: predominância feminina, nível econômico dos clientes (a classe alta tende ao ornamento), maior atenção a questões de moda e menor necessidade da afirmação intelectual do gosto, tomado mais pela sensibilidade e
pela aparência.

Sou homem, arquiteto, e com uma altíssima necessidade de justificação intelectual da arquitetura. Portanto, evidentemente, sempre tendi à pureza geométrica platônico-modernista. Minha graduação foi basicamente modernista, meu mestrado idem, e só profissionalmente pude me aproximar não-preconceituosamente (com dificuldade) do ornamento, sem percebê-lo como "crime" (como diria Adolf Loss), mesmo que não aderindo a ele.

Turquia e Grécia estão num entroncamento de mundos: o oriente médio e sua tradição decorativa - como os tapetes persas - e a Europa mediterrânea,
historicamente ideal-geométrica. O contraste de percorrer os dois países em seqüência é muito grande.

Se um dos motivos de preconceito intelectual contra o ornamento é o deslocamento de seu contexto, nas mesquitas turcas pude observá-los em seu habitat natural, uma cultura onde ele certamente se justifica e que está impregnada naturalmente em tudo: nos tapetes, nas almofadas, da louça e na arquitetura. O resultado é um maravilhamento do excesso, a beleza extrema do cuidado formal e do intuído trabalho manual que gerou esta criação. Não há como não respeitar ou acusar essa manifestação como ilegítima ou, pior, irracional. É sensível, de uma maneira não oposta à razão.

Depois de Istambul e de uma rápida passagem por Atenas, chegamos a Santorini, famosa por suas encostas repletas de casinhas brancas com portas azuis. Sólidos pur
os, cubos sem telhados e sem qualquer ornamento, quase um pedido de permissão à natureza para existir sem afetar a paisagem. No entanto, justamente a completa. Casas e encosta, o céu, o mar e o Sol parecem parte da mesma obra natural. Não há contraste. Por mais funcionalista e racionalista que possa parecer, características por vezes tidas como "artificiais" humanas, o resultado formal é extremamente harmônico com a natureza e com as formas eternas e ideais, ao gosto de Platão e Corbusier. A beleza absoluta atinge seu outro extremo.

Conclusão? Nenhuma. Observar como caminhos diametralmente opostos podem levar a resultados igualmente esplendorosos não só não me deu nenhuma resposta, como ainda me encheu de perguntas.

Ornamento islâmico e purismo mediterrâneo. Não é preciso escolher.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Chegou a hora

Chegou a hora. Amanhã vou para São Paulo e domingo para a capital do Império Romano do Oriente. Não sei se o blog se atualiza durante este período ou fecha e volta só daqui a 15 dias. Ou algo entre isso...

A ansiedade é a mesma de sempre, de Machu Picchu e da Europa. O nervosismo, o enjôo no estômago. Mas pronto pra escrever mais uma página desse capítulo.

Uma página que não é a última, antes da nova virada.

Ainda não...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Chaleira

E meu presente de aniversário chegou: o livro O FUTEBOL EXPLICA O BRASIL. Uma leitura histórica do futebol como representação social e política do país. Interessante. E logo nas primeiras páginas duas coisas chamaram a atenção. A primeira é que no início do século XX, o futebol era esporte de gentlemans ingleses, incluso a torcida. Da primeira vez que houve manifestações desfavoráveis do público, ou seja, xingaram o juiz, os jornais publicaram notas escandalizadas repreendendo a vulgaridade da torcida num esporte tão nobre.

Vai num estádio hoje em dia...

A segunda coisa foi a história da "chaleira", aquele toque na bola com o pé trocado, atrás do corpo (também chamado de "letra"). Nunca tinha entendido por que chaleira. Acontece que o primeiro a dar esse toque na Várzea do Carmo, local das partidas amadoras em São Paulo (e daí o nome "jogo de várzea") foi Charles Miller, brasileiro filho de ingleses que trouxe a primeira bola de futebol da inglaterra e que hoje batiza a praça em frente ao Pacaembu. "Chaleira" é curruptela de "Charles", e não tem nada a ver com aquela que tem bico mas não bica, tem asa mas não voa.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Atrás das grades de Brasília


Notícia importantíssima vinda de Brasília. Eles que não metem atrás das grades quem deveriam, querem agora meter grades onde não deveriam. Como urbanista, estudioso do pensamento moderno, lamento que a noção de propriedade esteja tão intrincada nas pessoas que elas tornem-se incapazes de partilhar qualquer espaço coletivo. Era o condomínio fechado, era o shopping center, e agora é a própria cidade.

A desculpa é sempre a mesma: a segurança. Pela segurança nacional Bush atacou o Iraque, pela segurança nacional Hitler atacou os judeus, pela segurança nacional são cometidos todos os grandes genocídios. Segundo os próprios discursos, todos são pacifistas, todos estavam apenas se defendendo. Pela segurança atacam a cidade.

Infelizmente a cidade só se faz por sua população. A medida que cada um se retira - ou se tranca - para trás dos muros e para próximo apenas dos seus iguais, a cidade morre não apenas espacialmente - as cicatrizes condominiais - mas humanamente. Pessoalmente, vejo a cidade brasileira morrer (na Europa não é assim) disposto a viver nela até o fim. Morreremos abraçados.

Viva Brasília! Viva Lúcio Costa!

[]
Croquis Lucio Costa. Concurso Plano Piloto 1957

Edifícios tombados no Plano Piloto de Brasília não podem ser gradeados


A Advocacia-Geral da União (AGU) impediu, na última terça-feira (15/12/2009), na Justiça, a instalação indiscriminada de grades ao redor dos edifícios residenciais do Plano Piloto de Brasília (DF) com ou sem pilotis (pilares que suspendem os prédios), para não descaracterizar o aspecto paisagístico e arquitetônico dessas áreas, que fazem parte da história da cidade e são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)

O Condomínio do Bloco "G" do Setor de Quadras Norte (SQN) 304 entrou com ação contra o Distrito Federal e o Iphan, para conseguir manter as grades colocadas em torno do edifício, por conta de supostas depredações e atos de vandalismo. Inicialmente, o juízo de primeiro grau e o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) acolheram os argumentos do condomínio, mas a AGU recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A Procuradoria-Geral Federal (PGF) da AGU, por meio da Adjuntoria de Contencioso, apresentou memorial a todos os ministros da Primeira Turma do STJ. Defendeu que a autorização para instalação das grades violaria o artigo 17 do Decreto-Lei 25/37: "as coisas tombadas não poderão, em caso nenhum ser destruídas, demolidas ou mutiladas, nem, sem prévia autorização especial do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, reparadas, pintadas ou restauradas, sob pena de multa de 50% por cento do dano causado".

A Adjuntoria do Contencioso ressaltou que estaria em questão a preservação do Plano Piloto de Brasília - o estilo arquitetônico e paisagístico da
cidade, sujeito ao regime jurídico especial de tombamento. A área faz parte do patrimônio histórico e cultural brasileiro e de toda a humanidade, pois está inscrita na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Destacou, ainda, que a instalação de grades contraria a idéia original de Lúcio Costa, que projetou o Plano Piloto em Brasília, conceituado como um conjunto de edifícios residenciais sobre pilotis ligados entre si, cercados tão somente por árvores que facilitam a circulação, ventilação e o bem estar das pessoas.

Os ministros da 1ª Turma do por unanimidade, acolheram os argumentos e impediram as modificações pretendidas pelo condomínio. A decisão evita o efeito multiplicador de novas grades e formas de alteração nos edifícios.

Ref.: Recurso Especial nº. 761.756/DF

Informação enviada por Henrique Oswaldo (ICOMOS/Brasil)
Imagem não integra informação original

Este informe é uma iniciativa de divulgação do DOCOMOMO SÃO PAULO

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Carruagens de fogo


E saiu o resultado da Sâo Silvestre! Pior do que o ano passado, aliás.1:52:58 e 12715º posição. 5 minutos e umas mil posições atrás do ano passado.

Eu sabia que esse ano estava pior preparado do que o ano passado. Mesmo assim, com os meus 10km em uma hora da última corrida em Prudente, achei que poderia fazer 6 e poucos minutos por km e terminar com 1:35 ou 1:40 esse ano. Ledo engano. Até fui bem nos 10 primeiros km, mas depois disso desabei. Devo ter feito os últimos 5km em uns 45 minutos. Parei várias vezes, minhas pernas endureceram. A Brigadeiro praticamente fiz andando. Andando rápido, mas andando.

Enfim, sofri mas cheguei. Passei o ano novo que não podia nem levantar da cadeira. Só ontem é que voltei ao normal. Faz parte. Ano que vem eu vou à forra!


segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os Vermes


Sou bem fã do José Roberto Torero, colunista da folha, blogueiro do UOL, roteirista de cinema, escritor e tal e coisa. Então fui atrás do seu "Os Vermes", escrito em parceria com Marcus Aurelis Pimenta. Vejamos.

O livro conta a história de um verme dentro do corpo de um político, que por sua vez é um verme em "Arca", uma Brasília fictícia, capital de um país imaginário, construída com a forma de um corpo humano. Enquanto o político anda por Arca, o verme anda por seu corpo.

Políticos e vermes são um paralelo meio óbvio que precisaria se justificar com um grande texto. No entanto, dessa vez a dupla não foi tão sutil e exata como no ótimo "Terra Papagalli", acaba caindo no clichê e perdendo a mão da escatologia - coisa que às vezes acontece também no ótimo "blog do Lelê", escrito pelo Torero. Algumas outras anedotas, como o fato de que todos os habitantes de Arca terem nomes de animais (o próprio no "Arca" vem daí) e o comportamento bastante caricato dos personagens também chateiam um pouco. Não que nada se salve, mas se quiser conhecer o Torero, pule "Os Vermes" e vá direto para o "Terra Papagalli". Pessoalmente, eu vou agora para "O Chalaça", do mesmo autor, porque o cara é bom.

ps: Ah, já ia esquecendo da pérola. Depois de falar de políticos e vermes, na lista de agradecimentos do livro aparece os nomes de Ricardo Izar, José Genoíno e JOSÉ ROBERTO ARRUDA. Sim, o mesmo dos panetones. Pelo visto a pesquisa foi direto nas fontes primárias.