sábado, 17 de outubro de 2009

Trabalho braçal

E nesse sabadão de manhã, enquanto esperava o montador da mesa do computador, liguei a TV pra tomar meu café milagroso de todas as manhãs. Pulei do desenho da Globo pro pastor da Record, pro outro pastor, pro outro desenho e caí num documentário feito por alunos da PUC que estava passando na TV cultura.

O documentário era sobre as pessoas invisíveis que trabalham com limpeza: a moça que limpa as mesas no shopping, o gari que varre a rua, a mulher que limpa o banheiro da rodoviária, pessoas a quem normalmente ninguém dá atenção e que sofrem com humilhações de gente imbecil que, como a gente sabe, é o que não falta por aí. O documentário dava voz a essas pessoas. Muito interessante.

No meio dos depoimentos aparecia um cara que eu não sei quem era, devia ser um sociólogo, ou professor, dando uns pitacos. Pitaco aqui, pitaco lá, e o cara me solta essa: esse tipo de trabalho no Brasil é quase como um trabalho escravo. E como acabar com isso? Acabando com a profissão de gari. Enquanto houver o trabalho braçal haverá trabalho escravo.

Minha nossa, mas como o cara pode dizer isso? O trabalho braçal é o primeiro e o último dos trabalhos humanos. É o trabalho por definição. Acontece que a nossa herança platônica opõe o trabalho braçal ao intelectual e, pior que isso, encara o trabalho braçal como coisa de escravos, menos nobre e menos valorizado que o trabalho intelectual. Isso é Platão, isso é Marx, isso é um monte de gente, um problema cultural a ser equacionado e resolvido, mas não exterminado. Acabar com o trabalho braçal é, além de impossível, não entender o problema é não resolvê-lo. É preciso, ao contrário, valorizar o trabalho braçal, o bom trabalhador braçal, o bom mecânico, o bom faxineiro, o bom borracheiro, ao mesmo nível do bom advogado, do bom arquiteto. Vencer essa dialética.

Conheço um monte de gente que está na universidade sem a menor interesse, vontade ou talento para qualquer tipo de raciocínio intelectualmente profundo. Gente prática, gente manual. Gente braçal. É um tipo de personalidade. Da mesma forma, conheci eletricistas, pedreiros e montadores com um potencial muito grande de abstração, de raciocínio lógico e de pensamento profundo. Potencial, normalmente, não desenvolvido. Conheço vários diplomas engavetados por grandes comerciantes. Uns e outros estão no lugar errado e poderiam render muito mais se estivessem trabalhando conforme a sua maior capacidade. Mas, infelizmente, a universidade é o único caminho pra quem não quer passar fome.

Não me culpe. Culpe Platão.