sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O cavaleiro inexistente

Outra vez comento um livro comprado no melhor lugar do mundo pra se comprar livros: estações. Já comprei livros em postos de estrada, estações de ônibus, ferroviárias... Acho que falta-me apenas comprar um livro num porto. No caso de "O cavaleiro inexistente", de Ítalo Calvino, comprei-o num aeroporto, o de Congonhas, enquanto esperava o vôo para o Rio. Mas vamos a ele.

Parece-me haver mais neste livro do que tenha entendido. Em primeiro lugar por que sei como são as histórias de Ítalo Calvino, autor de "As Cidades Invisíveis", um de meus livros preferidos, e sei que essas histórias sempre são mais do que se lê. Além disso, a história do cavaleiro Agilulfo é breve e simples: trata-se de um cavaleiro que não existe. Ou seja, é apenas uma armadura branca e perfeita que se move, sem ninguém dentro e, no entanto, torna-se o melhor dos cavaleiros do exército de Carlos Magno. Mesmo não existindo, o cavaleiro tem uma forte personalidade e uma impecável postura e retidão, ao contrário de seu escudeiro Gurdulu que embora exista está sempre esquecendo-se disso e confundindo-se com coisas que vê, pensando ser um cavalo quando monta em um, um morto quando enterra a um, um peixe, um pássaro, ou a própria água quando olha uma tijela. Gurdulu identifica-se com todas as coisas, por isso se confunde com elas de tal modo que nem os seus vários nomes aderem a ele. Já Agilulfo não confunde-se com nada e permanece ereto e rígido.


A história contém outros personagens diferentes: Rambaldo, um jovem cavaleiro que procura vingar-se do assassino de seu pai e sai pelos campos de batalha procurando por ele, Bradamante, uma cavaleira mulher que se apaixona pelo cavaleiro inexistente e Torrismundo que coloca em cheque a validade do título de cavaleiro de Agilulfo ao afirmar que a virgem que ele salvara - ato que fazia dele um cavaleiro - não era realmente virgem na ocasião, ao que Agilulfo parte em viagem a procurar uma virgindade de 15 anos atrás para provar sua condição.


Não vou contar mais do que isso, mas me parece que está na relação entre Agilulfo e Gurdulu, o sólido cavaleiro inexistente e o inconsistente escudeiro existente a chave para as verdadeiras questões do romance. E no próprio Rambaldo, que existe por suas causas, ou por Bradamante, que existe para perseguir e ser perseguida ou ainda Torrismundo, que não tem um homem como pai mas sim toda uma ordem de cavaleiros, cavaleiros estes que abdicam de sua própria existência a fim de entrar em um transe religioso fruto da relação com o Graal.


Moral da história: Ítalo Calvino existe. Ah, esse existe demais.