domingo, 17 de maio de 2009

Meu nome é número 4

     Peguei um livro na semana passada, "Meu nome é número 4", que conta a história de uma chinesa nascida em plena Revolução Cultural conduzida por Mao Tsé-tung na China comunista dos anos 50. Ainda estou no começo da leitura, mas me parece interessante a história, se não literaria, pelo menos historicamente, contando fatos e acontecimentos da Revolução de Mao sob a ótica de uma criança.
     
     Agora, mesmo antes de chegar ao fim, uma coisa já me chanou a atenção. É impressionante o paralelismo entre as práticas do Partido Comunista Chinês com aquelas que li em "1984" e "Admirável Mundo Novo". Por exemplo, a repetição monótona de frases-feitas revolucionárias para as crianças de modo a interiorizá-las mesmo sem compreendê-las lembra muito os condicionamentos noturnos do mundo novo de Huxley, isso sem falar na extrita divisão classista - a personagem do livro, filha de um ex-dono de fábrica, mesmo órfã é marcada como "capitalista" pelos revolucionários - quase como os alfas e betas do mundo novo. Além disso, a mudança da história, o ataque à cultura e o pouco foco de quem é o "inimigo", definidos vagamente como "inimigos da revolução" e incluindo "capitalistas inflitrados na revolução mas com o propósito de desvirtuá-la" lembram os conflitos entre a Eurásia e Lestásia que mantinham o país permanentemente em guerra em 1984.

     No ponto onde estou, a protagonista chega em Pequim para ver Mao em uma passeata. Descreve como Mao aparece nos cartazes, sempre com o mesmo rosto e a mesma cicatriz. Mao não envelhece e desde que ela nasceu lembra dos cartazes de Mao com a mesma figura. Ela está ansiosa para ver o líder e quando passam as autoridades políticas, Mao não está entre eles.

    Fico pensando aqui: será que Mao não aparecia nunca? Será que Mao fixou-se como a imagem eterna dos cartazes de propaganda? Bom, eu sei que anos mais tarde ele morreu (o que deu cabo na revolução), mas talvez seja uma versão real do Grande Irmão de bigodes de George Orwel... Será?