sábado, 21 de fevereiro de 2009

CAP XXIII - Andando na linha

Existe uma maneira bem fácil de se chegar a Machu Picchu, vindo de Cusco, de trem. O dito te pega de um lado e te deixa em Águas Calientes, o povoado mais próximo de Machu Picchu, sem dor de cabeça, uma beleza. O problema é que, além de custar 100 dólares, a viagem de trem é o jeito mais fácil, e nessa viagem a gente nunca escolhia o jeito mais fácil para fazer as coisas.

Tirando esse jeito mais fácil, haviam muitos jeitos mais difíceis. Um deles era ir até Ollaytaytambo (alguma coisa assim) e comprar lá as passagens de trem que saíam mais baratas pra quem saísse dessa outra cidade. Mas não, ainda tava muito fácil. Surgiu então uma terceira possibilidade, cheia de aventura, escalas e chance de dar errado. Bem do jeito que a gente gosta. E foi assim que fomos.

O primeiro passo foi sair de Cusco para Santa Teresa, um povoado no meio das montanhas, do tipo de povoado que você pergunta por que diabos alguém resolve morar ali. O ônibus até Santa Teresa não sai da rodoviária de Cusco, que era até bonitinha, mas de uma rodoviária alternativa que nos fez matar a saudade da Bolívia. Fomos até um dia antes comprar as passagens, mas o ônibus era do estilo sem-horário-sai-quando-lotar. Já prevendo a batalha da viagem, compramos pras 8 horas da manhã mas saímos quase 9 horas, sabe-se lá porque. Todo o mundo dentro do ônibus lotado, esperando. Por sorte o ônibus tinha banheiro e ar condicionado. Tá, mentira, não tinha nem banheiro e muito menos ar condicionado, bem ao estilo sudamérica.

Enquanto esperávamos, vi um cara do lado de fora do ônibus olhando pra gente e oferecendo lanternas. Eu tinha levado uma lanterna pra viagem, mas tinha deixado na mala guardada lá no Estrelita. Bom, se o cara tava vendendo lanterna, alguma coisa tinha. A Jane, que com mais uma amiga também se juntou ao nosso grupo a partir daí, comprou e avisou que talvez fosse útil. Eu comprei, e seria mesmo...

E saímos! E chacoalha dentro do ônibus, chacoalha, e chacoalha mais. No caminho fui lendo George Orwell (A sombra de1984) e comendo bolacha, que era a única coisa que comeríamos praticamente o dia inteiro. Dentro do livro, que eu comprei em sebo, achei uma raridade! Um recorte de jornal , colado na contra capa, com durex, em que o repórter criticava a adoção do RG no Brasil. Pode isso? O artigo alegava que o RG tinha a função exclusiva de controlar os passos do cidadão e de tirar as liberdades pessoais do povo. Questão de controle. E que caminhávamos assim para um regime totalitário como o previsto por Orwell em 1984. Incrível, uma pérola. São fantásticas as surpresas que um livro de sebo podem trazer pra gente.

Depois de chacoalharmos muito, e de subir ainda mais pelas montanhas, descemos em um lugar no meio do abismo para comprar comida e ir ao banheiro inexistente. Sim, claro que não havia banheiro, então o pessoal se virava no mato e; bom, deixa pra lá. Um tempão depois, chegamos no povoado de Santa Teresa.

Ficamos bem pouco, o suficiente para arrumar uma van que nos levasse até a hidrelétrica de Santa Maria, o que não levou mais de 10 minutos. Como éramos muitos, conseguimos fechar uma van só nossa, e toca estrada de novo. Montanha, precipício, estrada de terra e um motorista com a faca nos dentes, tudo o que a gente já tava acostumado. E um calor infernal! De repente, fim. A van pára em lugar quase nenhum. Tem algumas outras vans e algumas barraquinhas vendendo coisinhas como papel higiênico e banana. Dali pra frente era a pé.

Lembra do trem? Pois ele passa pela hidrelétrica também, vindo de Cusco. E quem não vai no trem, vai andando pelos trilhos. Foi o que fizemos. Mais ou menos 3 horas de caminhada pela linha, se equilibrando nos dormentes ou machucando os pés nas pedras.

Eu não sei por que eles enchem o espaço entre os dormentes do trilho com pedras. Não é muito bom andar por cima delas, então tivemos que bolar maneiras de chegar andar de modo a chegar com o pé inteiro do outro lado. Em algumas horas dava pra andar pelo "acostamento" de terra. Outra pelas tábuas do próprio trilho. O problema é que elas não são espaçadas regularmente como os desenhos de criança, e você tem que dar um passo comprido e um curto, cada um de um tamanho, e não consegue andar bem. Andar sobre o dormente é complicado, porque é apenas uma linha de metal, redonda, onde é difícil se equilibrar. Depois de algumas tentativas chegamos a conclusão que o melhor é andar em duplas, cada um de um lado da linha, sobre os dormentes. Pra se equilibrar, um coloca a mão no ombro do outro, e vamos andando juntos. Depois de um tempo dói o ombro, mas você vai revesando entre dor no pé e dor no ombro e descansa um enquanto explora o outro.

A noite nos pegou nos trihos. O homem que vendia lanterna sabia das coisas. Por sorte eu tinha a minha! Depois da noite, a chuva nos pegou nos trilhos também e a nossa chegada em águas calientes foi apoteótica. Meus pés estavam com bolhas de tudo o que era jeito, de todos os tipos, tamanhos e cores. Meu estômago ainda lembrava do restaurante chinês do dia anterior. Meu ombro doía do andar em pares, a lanterna era insuficiente na escuridão. Estávamos todos molhados e sem lugar para ficar. E a entrada da cidade ainda era uma ladeira! E toca subir. Lá em cima ainda levamos uma meia hora para encontrar um hotel barato que tivesse banho quente e aceitasse todos.

Águas Calientes é uma cidadezinha bem turística. Só tem os hotéis de um lado e restaurantes do outro. Mas são restaurantes bonitinhos. Me lembrou um pouco Paraty, não sei por que. Passamos em frente a uma pizzaria e depois da convenção habitual com votação em 2 turnos decidido por maioria absoluta de 50% + 1 como eram todas as nossas decisões, paramos para comer. Ai, que saudade de uma pizza. A pizza não era ruim, mas só haviam 2 sucos: plátano, ou seja, banana, e limão. Eu já previ o que ia acontecer e pedi de limão, e não deu outra. Os sucos vieram sem gelo, e suco de banana sem gelo é um troço intragável.

Pés inchados e bucho cheio, fomos dormir por que o dia ceguinte começaria bem cedinho. Era dia de Machu Picchu!



Andando na linha.