terça-feira, 27 de janeiro de 2009

CAP XIX - A puma sagrada

Para os Incas existem três animais sagrados: a serpente, a puma e o condor. Tudo gira em torno desta tríade que representa, pela ordem, o mundo dos mortos, a terra e o céu. Titicaca, por exemplo, o nome do lago, significa "puma de pedra" já que em uma ilha do lago há uma pedra sagrada em forma de puma.

Acordamos cedo no dia seguinte, antes de o despertador tocar. Também, não dava pra dormir até muito tarde naquele colchão de palha. Eu levantei um pouco mais cedo do que os outros, deixei tudo arrumadinho e saí pra procurar um café da manhã.

Ah, a maravilhosa visão de turismo que só os bolivianos, ainda mais em Copacabana, tem. O passeio para a Isla del Sol sai às 8:00 h. Às 7:30 h, em vez de servir um café reforçado, o pessoal dos restaurantes e dos hotéis ainda está tranquilamente limpando o chão. Tive que rodar pra achar algum lugar já funcionando, mas achei faltando 15 pras 8. Engoli o café com pão e toquei pro porto de onde saíam os barcos.

O trato era o seguinte. Iríamos de barco até o norte da Isla de Sol, no lago Titicaca, e iríamos caminhando até o sul - uma trilha de 2 ou 3 horas de caminhada. O barco não é nem péssimo, nem totalmente confiável. Há cadeiras na parte de baixo e uns bancos ao ar livre, no teto. Como ainda era de manhã e estava frio, todo o mundo fica em baixo. Sento na última cadeira vaga e quem está bem atrás de mim? A Dellas!, a argentina do Hard Rock Café de La Paz que veio conversando comigo sobre música e livros nas 2 horas de travessia até a ilha.

Chegando à Isla del Sol, um guia nos levou pelo começo da trilha. Nos contou as histórias e as lendas, os rituais e as curiosidades da ilha. Primeiro nos mostrou onde o Sol foi criado, segundo os Incas: uma fenda em uma rocha no alto da ilha. Depois contou que logo ao lado há uma cidade pré-Inca submersa pelo Titicaca descoberta por Jaque Cousteau em 1968. Um pouco à frente havia a Puma de Pedra, a Titicaca que dá nome ao lago.

Parêntesis. Dias depois, os dois companheiros que ficaram em La Paz passaram pela Isla. Um deles é daquele tipo de gente cujo intestino se desarranja nos lugares mais impróprios. Pois o rapaz chegou na ilha e foi andando. Viu um arranjo de pedras bonitinho e resolveu se aliviar por ali mesmo. Por sorte o amigo dele achou o lugar muito exposto e ele desistiu da idéia. Ainda bem. Um segundo depois o lugar encheu de turistas. A pedra era justamente a pedra sagrada dos Incas, a puma de pedra. Outra boa foi a mulher que vendia badulaques e tinha pra vender um bocado de pedrinhas. Nossa amiga perguntou: señora, o que és esto? És piedra! Ah bom, era pedra.

Depois de dar uma olhada na puma da pedra, em uma mesa ritual de sacrifício de lhamas e em um labirinto de ruínas, tocamos para a trilha já sem o guia. E sobe, e sobe, e sobe. Visuais impressionantes, um ventinho gelado e o Sol torrando a cara. Na hora não percebi, mas dizem que na altitude o Sol queima mais já que a camada de ar é menor. Montanhas, montanhas, montanhas, o Titicaca ao fundo, tudo muito impressionante. De vez em quando uma lhama aqui, uma ovelha ali, ou um nativo vendendo bananas ou tirando fotos com lhamas por 2 soles. Pagamos ingresso em 3 pontos diferentes e desci novamente até o nível do mar conversando com um boliviano que fazia medicina em Santa Cruz de la Sierra e por isso estava bem acostumado com brasileiros.

Ainda demos 2 pulinhos nas Islas Flutuantes onde moram algumas pessoas. Mas como visitamos novamente as Islas do lado peruano, e estas eram maiores e mais legais, vou deixar pra falar sobre elas depois.

Outra maravilha do planejamento boliviano. Além do café ter sido servido depois do barco sair, o último ônibus para Puno saía antes do barco chegar com os turistas. O jeito foi ir de van. Era uma van bonitinha, vermelha, mas só ficamos nela por 5 minutos. Depois da fronteira com o Peru, descemos para carimbar o passaporte e nos enfiaram em um ônibus velho, o mais velho da viagem. Meu Deus, que lixo! Sentamos e continuou subindo gente. Subiram mais brasileiros, argentinos, um australiano, 2 franceses bem sujos com malabares, mais as malas de todo o mundo. Tinha gente de pé, sentada em cima das malas, um por cima do outro. Eu tava com febre desde La Paz, ruim da garganta, enfiei os pés por baixo da cadeira da frente e acordei em Puno, nossa primeira parada peruana.


A Puma sagrada de pedra. Aí tem a cabeça de uma puma, mas tem que tomar chá de coca pra enxergar.