domingo, 25 de janeiro de 2009

CAP VIII - Copacabana

Um bom lugar, pra ver o mar, Copacabana. Não não. Na Copacabana da Bolívia não se vê o mar, apenas o lago Titicaca. Mas eu já chego lá.


Acordamos cedo no dia seguinte e fomos almoçar. Como de costume, para que as 12 pessoas decidissem se almoçariam ou não houve uma reunião, um plebiscito em 2 turnos, uma apreciação, uma acariação, argumentações e recursos de toda espécie e, por fim, não se chegou a conclusão nenhuma. Lá pelas 11 horas, metade do pessoal entrou num simpático café e a outra metade esperou na porta, sem querer comer nada. Eu comi uma salada bem boa, apesar dos abacates, e tomei um suco. Alguns tomaram sucos e o pobre do Lucas, um dos gauchos, tentou tomar um chá mas vomitou tudo no banheiro por causa da ressaca da noite anterior.


Descemos até uma rua mais movimentada para conseguir um taxi. O trajeto era o seguinte: tinhamos que ir até o Cemitério do General, que nome estranho, pois dali partiam os ônibus e vans para Copacabana. Na hora de apanhar o táxi, os que não haviam comido resolveram que agora queriam comer e o grupo se dividiu.


Eu entrei no táxi e fui até o cemitério. Chegando lá, haviam vários ônibus e vans estacionados, e pessoas na rua oferecendo passagens ao melhor estilo boliviano: no grito. Os ônibus não eram todos convidativos. As malas eram amarradas no teto e a ferrugem comia solta. Resolvemos esperar um pouco para ver se conseguíamos reagrupar a trupe e sentamos numa praça bem em frente onde estavam algumas argentinas. Começamos a conversar e a contar da nossa aventura pela estrada alternativa para La Paz que havíamos percorrido com o pneu furado. E para dizer "pneu furado"? Que és pneu? Sabe a roda? Então, é a parte de borracha. Mas "borracho" quer dizer bêbado, e ficou parecendo que a roda estava bêbada. Sabe a roda, é a parte negra! Ah sim, la "llanta". Llanta é pneu. Pra traduzir "furado" fiz com a boca: la llanta, pffffffffff.


Peraí, cadê a minha máquina fotográfica? Achei que tinha esquecido no restaurante onde comi a salada. Peguei um táxi e voltei até lá, mas não estava. Certamente havia caído no primeiro táxi, e daí adeus máquina. Cheguei de novo na praça e o resto do grupo ainda não tinha aparecido. Quando estávamos quase desistindo de esperar o pessoal chegou. Havia um ônibus saindo naquele instante e subimos nele. Malas amarradas lá em cima e mais algumas horas chacoalhando no bumba. Não sei quantas, perdi a conta. Era sempre assim, 15 horas, 10 horas, 17 horas. Passar a noite no ônibus, sair com sol e chegar com sol era normal. Pra Copacabana saímos 2 da tarde e chegamos 6 ou 7 da noite.


A viagem foi tranquila, perto das outras. A partir de certo momento, já pudemos avistar o famoso lago Titicaca. Parece um mar. A água é muito azul, claro, sem ondas e sem sal, mas sem fim. Dá uma certa emoção em materializar na sua frente o lago de papel ds livros de geografia. Em certo momento, o ônibus segue de balsa e nós seguimos de barco por alguns minutos, e na descida havia uma barraca com Inca Kola pra vender. Falarei mais da Inca Kola depois.


Chegamos no final da tarde com 2 missões: arrumar uma hospedagem e agendar para o dia seguinte os passeios para a Ilha do Sol e as Ilhas Flutuantes. E de cara tivemos problemas.


Copacabana é um povoado minúsculo. São duas praças com meia dúzia de ruas aqui e ali. Uma prainha com um porto às margens do Titicaca e fim. E haviam muitos, muitos turistas, mochileiros. Daí ferrou. A maioria dos holstels não tinha vaga para ninguém, quanto mais para 10 pessoas (2 haviam ficado em La Paz) e com um bom preço ainda por cima. Passamos em uns 5 ou 10 lugares até que alguém deu a dica: existe um santuário em que é possível se hospedar bem baratinho.


Era baratinho mesmo, 2 bolivianos, o que dá uns 80 centavos de real ou nem isso. Uma construção grande, de 2 andares com um pátio interno, parecendo uma antiga casa de fazenda. Não dava pra ver nenhum turista ou mochileiro, mas bolivianos, algumas cholas. Conversamos com alguém perguntando se havia vaga para 10 pessoas. A pessoa se riu: só no quarto 29.


O quarto 29 podia ser chamado de cela 29. O trapézio de chão de pedra tinha uma porta e uma janela de madeira, e mais nada. As paredes tinham uns 35 cm de expessura, de modo que eu podia colocar os pés e os sapatos no peitoril da janela. Haviam também 10 colchões de palha da metade de um tamanho de um colchão normal, de modo que você tinha que dormir com as costas na palha não-tão-macia e com as pernas pra fora. Depois de uma assembléia, decidiu-se que iriam unir os colchões num grande tatame e se apertar todo o mundo em cima deles. Sem querer ser egoísta, eu não topei e dormi no meu meio-colchão do modo tradicional, com as pernas sobre a minha mochila que, afinal de contas, serviu bem. Chuveiro, nem pensar, nem frio e nem quente, e mesmo o banheiro era um buraco no chão tão nojento que eu preferi fazer xixi no mato.


Nessa hora eu me dei conta que, além da máquina, havia esquecido o meu agasalho na praça em frente ao cemitério, de modo que tive que sair pra comprar outra. Também procurei outra máquina, mas malemá encontrei cameras de filme, bem vagabundas, pra vender. Nada digital. Ainda deu tempo de fechar os passeios para o dia seguinte, dar uma voltinha, comer um macarrão bastante aceitável e correr de volta para o santuário que fechava às 10. A noite no colchão de palha não foi das melhores, claro, mas com certeza foi inesquecível como o pior lugar que eu já dormi na vida.


O quarto 29 do Santuário. Meio colchão de palha pra cada um. Eu estou lá no cantinho, com os pés pra cima.