quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

CAP IV - o onibus da morte

Quando entrei no onibus para Cochabamba, cruzei com uma reporter da televisao que entrevistava o pessoal lá dentro. Nao conversou com a gente, mas com os bolivianos que estavam por lá. A pergunta da entrevista era a seguinte: Você nao tem MEDO de seguir para Cochabamba pela estrada alternativa?

Isso aí. Até os bolivianos estavam com medo da estrada. Antes de embarcarmos, as histórias começaram a aparecer. Que era perigoso, que havia o risco de desabamentos, que em algumas partes os passageiros tinham que descer do onibus para que ele passasse sozinho. Se nao bastasse isso, o onibus nao era exatamente confortável, embora nao tenha sido nem de longe o pior de nossa viagem.

Deixei minhas malas no bagageiro com um menino de uns 12 anos. Depois de serem crianças simpáticas, os bolivianos pré adolescentes já nos aparecem nessas situaçoes, trabalhando, e com uma cara de anao, de adulto encolhido. O menino guardava as malas e dava instruçoes com a autoridade do motorista. Entrei no onibus e me sentei ao lado de um boliviano, o Frans.

O Frans estava indo visitar a famìlia em La Paz. Boliviano de nascimento, mora no Brasil faz alguns anos. Trabalha em Sao Paulo, no Brás. Torce pro Corinthians e pro Strongest e acha que o Ronaldo nao vai jogar bem no Brasil. Assim como quase todos os bolivianos (menos algumas cholitas, que eu já conto quem sao), é simpático e gosta dos brasileiros. Foi me explicando as condiçoes da viagem, sobre a Bolívia, sobre o plebiscito e sobre o Evo.

Logo de saída, o onibus parou com um problema no pneu. Acho que era um furo. O motorista sem nenhum pudor deu uma remendada ali na hora e tocou o barco. Imagina a nossa tranquilidade ao saber que alem de tudo o pneu estava furado. Andamos um pouco e logo começamos a subir. Subir, subir e subir. Daí entendemos porque a estrada estava bloqueada. Precipícios, paredoes de pedra, pontos de estrangulamento, e o onibus pendurado na cordilheira dos andes, contornando as montanhas com uma habilidade que só os motoristas bolivianos tem (eles fazem coisas incríveis). A cada curva o pneu furado lambia as pedrinhas do precipício no acostamento inexistente. Gelava a barriga. Pendurados nas janelas, nós brasileiros íamos soltando "nossas", "vixes" e "puts" a cada entortada dao onibus.

Mas isso teve uma contrapartida. Nosso primeiro contato com os Andes foi da maneira mais direta, crua e sem anestesia possível. As paisagens se seguiam, uma mais maravilhosa que a outra. As montanhas, os vales, os rios (alguns secos), o céu azul. Tudo isso nos enchia de medo e de espanto, enquanto os bolivianos dormiam como se nada estivesse acontecendo.

Anoiteceu e paramos para comer no lugar mais esquisito que eu já tinha passado até entao. Um pueblo, uma vilazinha boliviana com calçadas de terra, muito pobre. Os bolivianos desceram em algo que seria um restaurante e comeram pollo com arroz e macarrao. Eu nao tive coragem de comer depois que vi que a senhora que pegava o dinheiro botava o macarrao no prato com a mao. A gauchada desceu e comprou um saco de folha de coca, o que nos seria muito útil mais pra frente.

De madrugada chegamos a Cochabamba. Nao sei como, mas vivos. E nao tinha ninguém da televisao nos esperando... Agora seguiríamos direto para La Paz!





Um dos visuais de dentro do onibus da muerte lambedor de precipícios.