segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Cap II - O trem da morte

Os dias vao se passando e acontecem mais coisas do que eu tenho tempo (e interesse) de escrever. Já faz uma semana que cheguei correndo em Puerto Suarez, mas nem tanto assim. Acontece que o horário de partida do trem, quatro e meia, era no horário boliviano, uma hora atrasado em relaçao a Cuiabá (continuo sem os acentos), e duas em relaçao a Brasília.

Antes do trem tivemos que passar pela fronteira e carimbar o passaporte. Meu primeiro carimbo de passaporte foi boliviano, eu que nunca fui nem para o Paraguai. Pela primeira vez me vi em um lugar em que nao se falava portugues. Passamos e fomos até a estaçao.

Para o bom mochileiro, o trem da morte é quase uma entidade, uma pessoa. Faz parte da viagem. Eu mesmo recusei ir e voltar de aviao, e de graça, para passar pelo trem. E o bicho veio chegando, aquele monte de metal, sujeira e bolivianos. Tirando a señora que já em Puerto Quijarro me trocou reais por bolivianos, este seria meu primeiro contato com o povo.

Nossa poltrona era do último vagao, categoria Super Pullman (a melhor de todas, que eu sou mochileiro mas nao sou besta). Antes de sair sobem ao trem um casal com a filha e mais um (acho que o tio da menina). Estao afobados, olham pra cá e pra lá, eu nao entendo o que eles dizem. Voltam-se para mim e me pedem para trocar de lugar para que o tio possa viajar ao lado da menininha. Dessa vez eu topo e4 eles me agradeecm com um "você é brasileiro nao é? os brasileiros sao diferentes". Temos fama de boa praça.

No meu novo lugar, sento-me ao lado de outro time com criança, dessa vez a mae, boliviana, a avó e um menininho que viajam no bnco de trás. Sao indígnas e acho engraçado que a mae, que está ao meu lado, leia Quincas Borba.

Nada disso me incomodou. Ao contrário, tomei a primeira liçao sobre a Bolívia. As crianças bolivianas nao choram. Sao extremamente agradáveis, sorridentes, falantes. Conversam com todos. Há algo de diferentes nas crianças bolivianas, um segredo só delas, que nao pude descubrir.

Além do Machado de Assis, outra produçao brasileira nos acompanhou durante a viagem: o filme Tropa de Elite, legendado em español. Calla-te. Meu banco nao se reclinava direito, ou reclinava, mas nao travava, e chacoalhei durante 16 horas. Andei pelo trem, dormi, e aumentamos a trupe com uma gauchada. Na manha seguinte estávamos em Santa Cruz de la Sierra.

Olhando agora, a descriçao dessa viagem está me parecendo pobre e falha, mas como está acabando a minha hora aqui em Puno, no Peru, teremos que nos contentar com isso mesmo.





O lendário trem da muerte. Nosso vagao era essa aí atrás, o último.