quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

CAP XX - Peru, um país pobre

Alguém me disse logo que entramos no Peru: bem melhor que a Bolívia né? Sim, agora sim é um país pobre, enquanto a Bolívia às vezes não parece nem um país. A diferença já começa nos guichês de imigração na fronteira. Um ao lado do outro, o peruano é novinho, limpinho e organizado enquanto o boiviano é uma zona, feio e sujo.

Digo isso apesar do ônibus que nos levou até Puno, que era um lixo. E nem nos deixou na rodoviária, mas na rua de trás. Descemos de madrugada, tortos, doloridos e eu, ainda por cima, doente. Por sorte, antes que eu ficasse desesperado encontramos uma pousada do outro lado da rua com um restaurante do lado onde, depois de um banho quente (que eu não tomava desde La Paz), comi um "montado", que é o nosso "bife a cavalo", com um ovo frito por cima. O refrigerante estava quente, mas no Peru é assim. Depois foi cama.

Na manhã seguinte acordei e fui tentar tomar um café na rodoviária. Deu um certo trabalho pedir um pão com manteiga. Depois saímos pra passear por Puno. Passamos em um estádio de futebol e fomos entrando. No campo tinha uma molecada treinando com um professor brasileiro, de Niterói, chamado Lima. De lá fomos até o centro da cidade trocar dólares por soles (1 dólar para 3,10 soles) e eu descobri que com meu cartão VISA conseguiria até sacar dinheiro da minha conta corrente! Que beleza! Com grana no bolso, saí pra comprar uma máquina nova e dessa vez comprei também uma capinha. Nunca mais perco!

Puno é uma cidade bonita. Não sei por que, talvez pela proximidade da experiência da muvuca que é La Paz, gostei muito de lá. Dei boas voltas pelo centro e almocei uma trutcha (as trutas do titicaca) com Inca Kola. A trutcha estava fria e a Inca Kola quente, mas tudo bem. A tarde fechamos um passeio para a Isla de Uros, as ilhas flutuantes peruanas.

Explicações do próprio habitante sobre as ilas. Na época do domínio Inca, os povos dominados tinham que carregar as pedras. Um desses povos, que não era muito chegado em trabalhar, foi fugindo e preferiu viver no lago do que trabalhar pros Incas. Primeiro construíram barcos e moravam nos barcos. Daí emendaram 2 barcos, e outros barcos, e foram desenvolvendo as técnicas de fazer as Islas Flutuantes que são cubos de terra de uns 2 palmos de aresta amarrados uns nos outros e recobertos com totora. A totora é uma planta, parece um capim, que nasce no lago. A totora seca serve para cobrir as ilhas, os barcos e as casas onde moram, que parecem ocas. A totora verde ainda tem um miolinho comestível e eles aindam comem totora para limpar os dentes. Ou seja, já jantam e escovam os dentes numa tacada só. Muito prático.

Ah! E a totora também serve para fazer artesanato. E eles fazem muitas coisas de totora, de pedra, de lã, enfim. Pegamos um barco para ir até a Isla e antes de saírmos um peruano subiu tocando beatles numa daquelas flautinhas. Claro que depois ele pediu uma "propina", como eles chamam lá. Depois o barco foi até a isla onde tivemos a explicação que já relatei, onde comemos totora e compramos bugigangas. Meus companheiros, que gostavam mais de bugigangas do que eu, atacaram as banquinhas dos nativos como um enxame e saíram carregando metade da ilha. Enquanto isso eu dei uma propina para ir até uma outra ilha no barco de totora em vez do nosso. Durante a viagem, enquanto os nativos remavam, 4 menininhas iam cantando e pedindo propina.

Fim do passeio, era arrumar as malas e tocar para Cusco. O ônibus era bem bom e a rodviária era bemm mais organizada do que as de até então. Viajamos a noite toda e antes de amanhecer já estávamos em Cusco. Machu Picchu estava cada vez mais perto.



Com uma menininha de Uros, as ilhas de totora.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

CAP XIX - A puma sagrada

Para os Incas existem três animais sagrados: a serpente, a puma e o condor. Tudo gira em torno desta tríade que representa, pela ordem, o mundo dos mortos, a terra e o céu. Titicaca, por exemplo, o nome do lago, significa "puma de pedra" já que em uma ilha do lago há uma pedra sagrada em forma de puma.

Acordamos cedo no dia seguinte, antes de o despertador tocar. Também, não dava pra dormir até muito tarde naquele colchão de palha. Eu levantei um pouco mais cedo do que os outros, deixei tudo arrumadinho e saí pra procurar um café da manhã.

Ah, a maravilhosa visão de turismo que só os bolivianos, ainda mais em Copacabana, tem. O passeio para a Isla del Sol sai às 8:00 h. Às 7:30 h, em vez de servir um café reforçado, o pessoal dos restaurantes e dos hotéis ainda está tranquilamente limpando o chão. Tive que rodar pra achar algum lugar já funcionando, mas achei faltando 15 pras 8. Engoli o café com pão e toquei pro porto de onde saíam os barcos.

O trato era o seguinte. Iríamos de barco até o norte da Isla de Sol, no lago Titicaca, e iríamos caminhando até o sul - uma trilha de 2 ou 3 horas de caminhada. O barco não é nem péssimo, nem totalmente confiável. Há cadeiras na parte de baixo e uns bancos ao ar livre, no teto. Como ainda era de manhã e estava frio, todo o mundo fica em baixo. Sento na última cadeira vaga e quem está bem atrás de mim? A Dellas!, a argentina do Hard Rock Café de La Paz que veio conversando comigo sobre música e livros nas 2 horas de travessia até a ilha.

Chegando à Isla del Sol, um guia nos levou pelo começo da trilha. Nos contou as histórias e as lendas, os rituais e as curiosidades da ilha. Primeiro nos mostrou onde o Sol foi criado, segundo os Incas: uma fenda em uma rocha no alto da ilha. Depois contou que logo ao lado há uma cidade pré-Inca submersa pelo Titicaca descoberta por Jaque Cousteau em 1968. Um pouco à frente havia a Puma de Pedra, a Titicaca que dá nome ao lago.

Parêntesis. Dias depois, os dois companheiros que ficaram em La Paz passaram pela Isla. Um deles é daquele tipo de gente cujo intestino se desarranja nos lugares mais impróprios. Pois o rapaz chegou na ilha e foi andando. Viu um arranjo de pedras bonitinho e resolveu se aliviar por ali mesmo. Por sorte o amigo dele achou o lugar muito exposto e ele desistiu da idéia. Ainda bem. Um segundo depois o lugar encheu de turistas. A pedra era justamente a pedra sagrada dos Incas, a puma de pedra. Outra boa foi a mulher que vendia badulaques e tinha pra vender um bocado de pedrinhas. Nossa amiga perguntou: señora, o que és esto? És piedra! Ah bom, era pedra.

Depois de dar uma olhada na puma da pedra, em uma mesa ritual de sacrifício de lhamas e em um labirinto de ruínas, tocamos para a trilha já sem o guia. E sobe, e sobe, e sobe. Visuais impressionantes, um ventinho gelado e o Sol torrando a cara. Na hora não percebi, mas dizem que na altitude o Sol queima mais já que a camada de ar é menor. Montanhas, montanhas, montanhas, o Titicaca ao fundo, tudo muito impressionante. De vez em quando uma lhama aqui, uma ovelha ali, ou um nativo vendendo bananas ou tirando fotos com lhamas por 2 soles. Pagamos ingresso em 3 pontos diferentes e desci novamente até o nível do mar conversando com um boliviano que fazia medicina em Santa Cruz de la Sierra e por isso estava bem acostumado com brasileiros.

Ainda demos 2 pulinhos nas Islas Flutuantes onde moram algumas pessoas. Mas como visitamos novamente as Islas do lado peruano, e estas eram maiores e mais legais, vou deixar pra falar sobre elas depois.

Outra maravilha do planejamento boliviano. Além do café ter sido servido depois do barco sair, o último ônibus para Puno saía antes do barco chegar com os turistas. O jeito foi ir de van. Era uma van bonitinha, vermelha, mas só ficamos nela por 5 minutos. Depois da fronteira com o Peru, descemos para carimbar o passaporte e nos enfiaram em um ônibus velho, o mais velho da viagem. Meu Deus, que lixo! Sentamos e continuou subindo gente. Subiram mais brasileiros, argentinos, um australiano, 2 franceses bem sujos com malabares, mais as malas de todo o mundo. Tinha gente de pé, sentada em cima das malas, um por cima do outro. Eu tava com febre desde La Paz, ruim da garganta, enfiei os pés por baixo da cadeira da frente e acordei em Puno, nossa primeira parada peruana.


A Puma sagrada de pedra. Aí tem a cabeça de uma puma, mas tem que tomar chá de coca pra enxergar.

domingo, 25 de janeiro de 2009

CAP VIII - Copacabana

Um bom lugar, pra ver o mar, Copacabana. Não não. Na Copacabana da Bolívia não se vê o mar, apenas o lago Titicaca. Mas eu já chego lá.


Acordamos cedo no dia seguinte e fomos almoçar. Como de costume, para que as 12 pessoas decidissem se almoçariam ou não houve uma reunião, um plebiscito em 2 turnos, uma apreciação, uma acariação, argumentações e recursos de toda espécie e, por fim, não se chegou a conclusão nenhuma. Lá pelas 11 horas, metade do pessoal entrou num simpático café e a outra metade esperou na porta, sem querer comer nada. Eu comi uma salada bem boa, apesar dos abacates, e tomei um suco. Alguns tomaram sucos e o pobre do Lucas, um dos gauchos, tentou tomar um chá mas vomitou tudo no banheiro por causa da ressaca da noite anterior.


Descemos até uma rua mais movimentada para conseguir um taxi. O trajeto era o seguinte: tinhamos que ir até o Cemitério do General, que nome estranho, pois dali partiam os ônibus e vans para Copacabana. Na hora de apanhar o táxi, os que não haviam comido resolveram que agora queriam comer e o grupo se dividiu.


Eu entrei no táxi e fui até o cemitério. Chegando lá, haviam vários ônibus e vans estacionados, e pessoas na rua oferecendo passagens ao melhor estilo boliviano: no grito. Os ônibus não eram todos convidativos. As malas eram amarradas no teto e a ferrugem comia solta. Resolvemos esperar um pouco para ver se conseguíamos reagrupar a trupe e sentamos numa praça bem em frente onde estavam algumas argentinas. Começamos a conversar e a contar da nossa aventura pela estrada alternativa para La Paz que havíamos percorrido com o pneu furado. E para dizer "pneu furado"? Que és pneu? Sabe a roda? Então, é a parte de borracha. Mas "borracho" quer dizer bêbado, e ficou parecendo que a roda estava bêbada. Sabe a roda, é a parte negra! Ah sim, la "llanta". Llanta é pneu. Pra traduzir "furado" fiz com a boca: la llanta, pffffffffff.


Peraí, cadê a minha máquina fotográfica? Achei que tinha esquecido no restaurante onde comi a salada. Peguei um táxi e voltei até lá, mas não estava. Certamente havia caído no primeiro táxi, e daí adeus máquina. Cheguei de novo na praça e o resto do grupo ainda não tinha aparecido. Quando estávamos quase desistindo de esperar o pessoal chegou. Havia um ônibus saindo naquele instante e subimos nele. Malas amarradas lá em cima e mais algumas horas chacoalhando no bumba. Não sei quantas, perdi a conta. Era sempre assim, 15 horas, 10 horas, 17 horas. Passar a noite no ônibus, sair com sol e chegar com sol era normal. Pra Copacabana saímos 2 da tarde e chegamos 6 ou 7 da noite.


A viagem foi tranquila, perto das outras. A partir de certo momento, já pudemos avistar o famoso lago Titicaca. Parece um mar. A água é muito azul, claro, sem ondas e sem sal, mas sem fim. Dá uma certa emoção em materializar na sua frente o lago de papel ds livros de geografia. Em certo momento, o ônibus segue de balsa e nós seguimos de barco por alguns minutos, e na descida havia uma barraca com Inca Kola pra vender. Falarei mais da Inca Kola depois.


Chegamos no final da tarde com 2 missões: arrumar uma hospedagem e agendar para o dia seguinte os passeios para a Ilha do Sol e as Ilhas Flutuantes. E de cara tivemos problemas.


Copacabana é um povoado minúsculo. São duas praças com meia dúzia de ruas aqui e ali. Uma prainha com um porto às margens do Titicaca e fim. E haviam muitos, muitos turistas, mochileiros. Daí ferrou. A maioria dos holstels não tinha vaga para ninguém, quanto mais para 10 pessoas (2 haviam ficado em La Paz) e com um bom preço ainda por cima. Passamos em uns 5 ou 10 lugares até que alguém deu a dica: existe um santuário em que é possível se hospedar bem baratinho.


Era baratinho mesmo, 2 bolivianos, o que dá uns 80 centavos de real ou nem isso. Uma construção grande, de 2 andares com um pátio interno, parecendo uma antiga casa de fazenda. Não dava pra ver nenhum turista ou mochileiro, mas bolivianos, algumas cholas. Conversamos com alguém perguntando se havia vaga para 10 pessoas. A pessoa se riu: só no quarto 29.


O quarto 29 podia ser chamado de cela 29. O trapézio de chão de pedra tinha uma porta e uma janela de madeira, e mais nada. As paredes tinham uns 35 cm de expessura, de modo que eu podia colocar os pés e os sapatos no peitoril da janela. Haviam também 10 colchões de palha da metade de um tamanho de um colchão normal, de modo que você tinha que dormir com as costas na palha não-tão-macia e com as pernas pra fora. Depois de uma assembléia, decidiu-se que iriam unir os colchões num grande tatame e se apertar todo o mundo em cima deles. Sem querer ser egoísta, eu não topei e dormi no meu meio-colchão do modo tradicional, com as pernas sobre a minha mochila que, afinal de contas, serviu bem. Chuveiro, nem pensar, nem frio e nem quente, e mesmo o banheiro era um buraco no chão tão nojento que eu preferi fazer xixi no mato.


Nessa hora eu me dei conta que, além da máquina, havia esquecido o meu agasalho na praça em frente ao cemitério, de modo que tive que sair pra comprar outra. Também procurei outra máquina, mas malemá encontrei cameras de filme, bem vagabundas, pra vender. Nada digital. Ainda deu tempo de fechar os passeios para o dia seguinte, dar uma voltinha, comer um macarrão bastante aceitável e correr de volta para o santuário que fechava às 10. A noite no colchão de palha não foi das melhores, claro, mas com certeza foi inesquecível como o pior lugar que eu já dormi na vida.


O quarto 29 do Santuário. Meio colchão de palha pra cada um. Eu estou lá no cantinho, com os pés pra cima.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

CAP VII - Hard Rock Café La Paz

Já estamos no dia 9 de janeiro. Depois que voltamos do Chacaltaya, saí com parte da turma para comer uma pizza. Já tinhamos comido uma pizza, muito ruim por sinal, no dia anterior. Dessa vez fomos para uma pizzaria vizinha onde o cheiro estava mais convidativo.

A pizzaria era no segundo andar, subindo uma escada. O lugar, que por fora era muito feio, por dentro era bonitinho, talvez o primeiro que tenha visto em La Paz com alguma preocupação estética. Havia um casal ou dois, e uma mesa com bolivianos tocando flauta e violão. Sentamos e pedimos. Os bolivianos tocavam animados, uma, duas músicas, das tradicionais. Dois tocavam e os outros batiam palmas. Na terceira música batemos palmas também. Depois da quarta, não aguentei, levantei e fui falar com eles.

Fui até a mesa e perguntei se eles gostavam de música brasileira, se queriam ouvir. O flautista disse que gostava do Chico Buarque e eu toquei "Samba de um grande amor" para eles. Bateram palmas. Devolvi o violão e eles retribuíram tocando "Asa Branca" num ritmo que de baião tinha muito pouco e que tentei acompanhar cantando, sem muito sucesso. Mais palmas.

Saindo de lá fomos reencontrar o resto do pessoal no Hard Rock Café La Paz. Descobrimos que o bar que estávamos procurando desde o dia anterior ficava bem na esquina do nosso hotel, mas sua entrada era um pouco escondida. Entramos no bar e os brasileiros estavam numa mesa lá no fundo, mas mesmo assim foi fácil percebê-los por causa do barulho. Estavam todos lá, tomando cerveja em umas canecas de um litro e com uma bandeira do Brasil em punho.

Depois de tomar uma caneca de cerveja e tirar umas fotos, começamos a dançar em volta da mesa. Depois descemos e começamos a nos espalhar. Logo logo tomamos conta da festa. Além dos bolivianos, haviam muitos mochileiros no bar. Peguei a bandeira do Brasil e comecei a abordar as pessoas que dançavam. Conheci a Dellas, uma argentina com quem eu encontraria até o fim da viagem e que estava com outras argentinas, uma alemã e um holandês, um italiano e o Lorenzo, um francês, alguns bolivianos, e a Kruskaya, a quem eu reencontraria na volta, em La Paz. De repente, a bandeira do Brasil se tornou um cartão de visitas e qualquer um com quem me aproximasse sorria e dançava. Estava com a camisa do São Paulo e 3 homens numa mesa me diziam que eram Corinthianos. Um outro argentino queria trocar a minha camiseta do Rogério Ceni pela do River Plate e de vez em quando os garçons espalhavam bebida pelo balcão e punham fogo. Lá pelas tantas o DJ tocou música brasileira, funk e pagode, e nós subimos no palco para ensinar os bolivianos.

Me diverti muito. Na verdade, tirando as formaturas e duas ou três outras festas, não me lembro de ter dançado e me divertido tanto como nesta. As pessoas eram abertas e receptivas, todos se divertiam. Havia um clima diferente no ar. Cheguei a pensar que a minha implicância e ausência desse tipo de balada era chatice minha. Depois, na outra festa a que fomos, no Peru, descobri que não. Acontece que no Hard Rock Café de La Paz houve mesmo uma confluência de astros, mochieliros e oportunidades que nem todo o dia se repete.

Fui o último da trupe a voltar pro hotel. Chegando lá, descobri que o elevador era desligado às 10 da noite e era preciso subir os 6 andares de escada. Estavam todos acordados ainda, conversando, e me contaram que um dos nossos companheiros tinha sido abordado na porta do bar por um vendedor de drogas. Como o dito companheiro gosta de marihuana, começou a conversar com o vendedor quando chegou a polícia e começou a sentar a borracha no boliviano. Para piorar, esse companheiro estava sem passaporte ou documentos, e a polícia queria evá-lo junto. Foi salvo por que outros amigos saíram do bar nessa hora e encontraram-se com ele, foram até o hotel, subiram correndo as escadas e encontraram o passaporte. Quase que o rapaz foi parar na Interpol!

Isso já eram umas 4 horas da manhã. No dia seguinte era tocar para Copacabana, a última parada na Bolívia. Todo o mundo foi dormir e eu tomei um dos melhores banhos quentes da viagem, com todo o mundo dormindo, sem pressa. E seria o último banho pelos próximos dias.





Uma parte do pessoal no Hard Rock Café.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

CAP VI - No alto do Chacaltaya

O monte Chacaltaya, na Bolívia, era a mais alta estacao de esqui de algum lugar, nao sei se da america do sul ou de toda ela. De qualquer forma, por causa do aquecimento global já nao tem tanta neve assim por lá e eles estao construindo uma estacao em um outro monte. Mas mesmo nao dando pra esquiar, no Chacaltaya ainda há neve, e nós subimos até lá em cima para ver.

Bem no pé do nosso hotel havia uma agencia de viagens que leva para esses passeios. Aqui no centro de La Paz, onde ainda estou, tem uma agencia dessas do lado da outra, vendendo a mesma meia dúzia de roteiros que se pode fazer por aqui. Acertamos tudo no dia anterior e bem cedo a van já estava nos esperando no hotel. E tome subida.

Acho que esqueci de comentar sobre uma característica importante da cidade: o transito. Juro que nunca mais olharei o transito de SP da mesma forma. Mesmo que a quantidade de carros nao seja tao assustadora, o caos é total. Ninguém pára, ninguém respeita, tudo se resolve na buzina. Faixa de pedestre é coisa raríssima e o único semáforo que vi, entre a Illampu e a Sagárnaga, era sumariamente ignorado por todos os motoristas. Tanto que, debaixo do semáforo, fica um guarda com um apito tentando botar ordem na situacao. Inutilmente.

Fomos subindo, saindo de La Paz, e no caminho passamos por uma dúzia de campos de futebol. Boliviano gosta de jogar futebol. Nao sei por que eles nao aprendem. Eu mesmo gostaria de ter jogado com eles, já que poderia realizar meu sonho de colocar a culpa de meu fraco desempenho na altitude. Se o Robinho pode, por que eu nao posso?

Se a estrada entre Santa Cruz e La Paz já era ruim, imagina a que beirava o Chacaltaya. Asfalto nem pensar. Terra e pedra estrangulando os carros numa pista que só passava um por vez. Depois de um certo tempo, ainda tinha a neve. Parecia aquele joguinho do enduro, onde se passava da terra para a neve em 1 segundo. No Chacaltaya é bem assim, de repente, neve. Na subida passamos também por estacoes numeradas que, disse o guia, eraçm bases cientificas de estudo de precipitacao, aquecimento global e etc..

A van estaciona lá em cima, onde há uma casa grande, de madeira, a antiga estacao de esqui. O visual é incrível. Muitas montanhas, as nuvens passando bem pertinho. E a neve! É mais áspera do que eu imaginei, como o gelo de raspadinha. Evidentemente, nao levou um minuto para que a guerra de neve estivesse instaurada. Tinha até um bonequinho de neve por lá, de autor desconhecido.

Passando por dentro da casa se saía em uma trilha que subia mais um pouco, até o topo onde as vans nao iam. Comecamos a subir, mas eu desisti nos primeiros metros. Meu pé escorregava, aquele precipicio do lado, o ar faltava e eu ofegava muito. Masquei algumas folhas de coca para tentar de novo mas nao deu certo. Voltei e fiquei esperando o pessoal tomando um chá de coca na casa de madeira. Nem todos chegaram no fim, a maioria desistiu. É muito alto. A gente tem que saber o limite...

De volta a La Paz, amoçamos num restaurante em que tinha um jukebox. Pedi bife a milanesa, comi muito e deixei metade no prato. No jukebox tinha Roberto Carlos em espanhol, mas nenhuma música conhecida. Coloquei uma moeda de 1 boliviano e pus o Michael Jackson pra cantar. Um dos nossos companheiros, um que teria sérios problemas gastrointestinais por toda a viagem, teve seu primeiro contratempo. Usou um banheiro onde não tinha papel. Por sorte tinhamos subido o Chacaltaya com duas meias, então ele pode utiizar uma delas para fazer o serviço.

Passamos a tarde rodando e comprando. Eu comprei gorro e luvas, fui à catedral e ao museu de etnografia onde haviam muits máscaras de danças típicas e folclóricas. No fim da tarde, tomamos banho e saímos outra vez para comer. Essa noite combinamos de ir para o Hard Rock Café de La Paz. Seria a melhor festa da viagem e uma das melhores da minha vida.




Pertinho das nuvens. Todo o mundo no alto do Chacaltaya.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

CAP V - La Paz

Coincidentemente, estou novamente em La Paz quando venho contar a minha primeira passagem pela capital da Bolívia. Capital mais ou menos, porque sei que Sucre também é capital. Uma é administrativa e outra política, eu sei lá, o que eu sei é que o Evo mora aqui (até topei com ele hoje, mas isso é outra história).

Chegamos em La Paz, toda a trupe, e pegamos um táxi para a rua Sagarnaga. O Frans tinha dado risada quando perguntamos onde ficava a "feira das bruxas", como os brasileiros a chamam, e disse que o nome correto era feira da rua Sagarnaga (sagárnaga). Rodamos um pouco e encontramos hotel para todos na rua Illampu, dois quartos, um de 8 e outro de 5 pessoas que ficou para a gauchada. Os quartos eram no sexto e sétimo andar, o que nao fez diferenca na hora, já que havia elevador, mas faria depois. De uma maneira geral nao era uma espelunca muito melhor do que as outras, mas a promessa era de banho quente. O problema é que mal chegamos e já ouvi um BUM no banheiro. O chuveiro estourou e chamuscou até o teto. Tive que tomar banho no outro quarto, mas, incrivelmente, o pessoal do hotel consertou a ducha no mesmo dia.

Fomos almocar num restaurante cubano. Depois do banquete que tinha sido o rodeo em Santa Cruz de la Sierra, estávamos a uns 2 dias sem botar algo decente na barriga. Eu pedi um pollo enrolado. A comida era boa mas seria natural prever que um restaurante cubano na bolivia teria um tempero estranho pra gente. Desceu que parecia um tijolo, e eu ainda por cima pedi uma Paceña bock que era mais forte que a normal e me deu uma baita dor de cabeca.

Na primeira noite, saímos para conhecer La Paz. A Gabriela, outra vez, deu trabalho. Achou que tinha perdido o dinheiro e tivemos que voltar correndo para o hotel procurar. O problema é que voltamos correndo, na subida, e daí o pessoal sentiu o peso da altitude boliviana.

Pode ser só pressao psicologica, nao sei, mas a altitude teve alguns efeitos em mim como uma dificuldade em me recuperar depois de um esforco físico como subir uma ladeira correndo. Voce fica ofegante e parece que nao se recupera. O ar nao vem. Mas depois passa. A Gabriela achou o dinheiro e voltamos para a cidade.

Boa parte do comércio fica aberto até tarde da noite. A feira das bruxas na verdade nao ocupa só a rua sagarnaga, mas parece que a cidade inteira. Por todo o lado sao cholas vendendo de tudo - luvas, gorros, lembrancas, colares, frango, pilhas - em qualquer cobertor estendido na calcada, de um modo que faria qualquer camelo brasileiro se sentir balconista da Daslu.

Pausa para explicar o que é uma chola. Uma chola, uma cholita, é aquela boliviana tradicional, gorda, com umas 500 camadas de roupa, cara de índia, dente de ouro, tecido colorido amarrado nas costas e chapeuzinho. Sao figuras mais exóticas que agradáveis, e elas nao sao exatamente bem-humoradas. Acontece de tirarmos fotos no onibus com elas dentro e elas nao gostaram nada. Sao meio porcas, eu nao sei. Sao estranhas. Mas parece que sao respeitadas.

Andamos pelo mercado até a Plaza Murillo, que é onde fica o Palácio Presidencial, uma lanchonete, uma fonte e um cinema onde estava passando Madagascar 1. O Evo, evidentemente, nao deu a menor pelota pra gente, desfrutando do seu sono presidencial protegido pela guarda do castelo. Parei na lanchonete para tomar um suco de laranja e mandei um expetacular "jugo de naranja" que foi entendido de primeira!

Rodamos, rodamos, rodamos. A cidade agitada a noite, as pessoas comprando e vendendo no calcadao, as pessoas comendo na rua. Os cachorros bolivianos que parece que nunca estao a toa, mas andam sempre omo quem tem compromisso. Os cachorros de rua bolivianos sao espertos, peludos e fortes, ao contrário dos peruanos que sao uns tontos. Acho que como tanta gente come pollo na rua, deve obrar muitos restos para os perros.

Na hora de voltar nos perdemos pelo labirinto de ladeiras que é La Paz. Por sorte, eu, JUSTO EU, me lembrava do nome da rua do hotel, calle Illampu, e salvei a lavoura. Chegando no hotel, a surpresa: lembra daquele elevador que ia direto até o sexto andar? Pois é, ele só funciona até as 10 horas. E toca subir de escada os 6 andares e morrer lá em cima, escorado na parede, procurando o ar. E no dia seguinte nós iríamos subir ainda mais alto. MUITO mais alto.

Rogério no restaurante cubano em La Paz com as bandeiras de Cuba e da Bolívia

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

CAP IV - o onibus da morte

Quando entrei no onibus para Cochabamba, cruzei com uma reporter da televisao que entrevistava o pessoal lá dentro. Nao conversou com a gente, mas com os bolivianos que estavam por lá. A pergunta da entrevista era a seguinte: Você nao tem MEDO de seguir para Cochabamba pela estrada alternativa?

Isso aí. Até os bolivianos estavam com medo da estrada. Antes de embarcarmos, as histórias começaram a aparecer. Que era perigoso, que havia o risco de desabamentos, que em algumas partes os passageiros tinham que descer do onibus para que ele passasse sozinho. Se nao bastasse isso, o onibus nao era exatamente confortável, embora nao tenha sido nem de longe o pior de nossa viagem.

Deixei minhas malas no bagageiro com um menino de uns 12 anos. Depois de serem crianças simpáticas, os bolivianos pré adolescentes já nos aparecem nessas situaçoes, trabalhando, e com uma cara de anao, de adulto encolhido. O menino guardava as malas e dava instruçoes com a autoridade do motorista. Entrei no onibus e me sentei ao lado de um boliviano, o Frans.

O Frans estava indo visitar a famìlia em La Paz. Boliviano de nascimento, mora no Brasil faz alguns anos. Trabalha em Sao Paulo, no Brás. Torce pro Corinthians e pro Strongest e acha que o Ronaldo nao vai jogar bem no Brasil. Assim como quase todos os bolivianos (menos algumas cholitas, que eu já conto quem sao), é simpático e gosta dos brasileiros. Foi me explicando as condiçoes da viagem, sobre a Bolívia, sobre o plebiscito e sobre o Evo.

Logo de saída, o onibus parou com um problema no pneu. Acho que era um furo. O motorista sem nenhum pudor deu uma remendada ali na hora e tocou o barco. Imagina a nossa tranquilidade ao saber que alem de tudo o pneu estava furado. Andamos um pouco e logo começamos a subir. Subir, subir e subir. Daí entendemos porque a estrada estava bloqueada. Precipícios, paredoes de pedra, pontos de estrangulamento, e o onibus pendurado na cordilheira dos andes, contornando as montanhas com uma habilidade que só os motoristas bolivianos tem (eles fazem coisas incríveis). A cada curva o pneu furado lambia as pedrinhas do precipício no acostamento inexistente. Gelava a barriga. Pendurados nas janelas, nós brasileiros íamos soltando "nossas", "vixes" e "puts" a cada entortada dao onibus.

Mas isso teve uma contrapartida. Nosso primeiro contato com os Andes foi da maneira mais direta, crua e sem anestesia possível. As paisagens se seguiam, uma mais maravilhosa que a outra. As montanhas, os vales, os rios (alguns secos), o céu azul. Tudo isso nos enchia de medo e de espanto, enquanto os bolivianos dormiam como se nada estivesse acontecendo.

Anoiteceu e paramos para comer no lugar mais esquisito que eu já tinha passado até entao. Um pueblo, uma vilazinha boliviana com calçadas de terra, muito pobre. Os bolivianos desceram em algo que seria um restaurante e comeram pollo com arroz e macarrao. Eu nao tive coragem de comer depois que vi que a senhora que pegava o dinheiro botava o macarrao no prato com a mao. A gauchada desceu e comprou um saco de folha de coca, o que nos seria muito útil mais pra frente.

De madrugada chegamos a Cochabamba. Nao sei como, mas vivos. E nao tinha ninguém da televisao nos esperando... Agora seguiríamos direto para La Paz!





Um dos visuais de dentro do onibus da muerte lambedor de precipícios.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

CAP III - Santa Cruz de la Sierra

Ainda no Peru, agora em Cuzco, e sem acento.

Descemos na estaçao bimodal de Santa Cruz de la Sierra, que além de ferroviária é também rodoviária, e imediatamente fomos procurar passagens para o próximo destino: La Paz. Alguns do grupo tomaram a dianteira na negociaçao e logo de cara já soubemos da notícia de que a estrada para La Paz estava interditada por causa de deslizamentos, da chuva, de sei lá o que. Os onibus estavam cancelados e a estrada só deveria ser liberada em uns 3 dias.

Ai ai ai.

Procuramos uma soluçao. Primeiro pensamos em seguir para o aeroporto e ir de aviao para a capital. Chegou a noticia de que isso ficaria por volta de 100 dólares. Era caro, mas nao havia outra maneira, ou havia? Perai, havia sim! A estrada alternativa.

Com os deslizamentos na estrada nova, o governo liberou o uso de uma estrada antiga que estava bloqueada, acho que por nao ser exatamente segura. Se as estradas novas na Bolivia já nao sao essas coisa, imagine o que eles chamam de "estrada pouco segura". Mas o grupo se fechou e encarou. Compramos a passagem para depois do almoço, direto para La Paz. Ainda era cedo e fomos passear um pouco.

Saímos da estaçao. A primeira coisa que te chama a atenaçao na Bolivia é o transito. Um caos. Ninguém respeita nada, nao existe sinalizaçao, semáforo. Tudo se resolve na buzina. Nao se passa 10 segundos sem que alguém de uma buzinadinha pra indicar que vai virar, que vai passar, que vai parar. Buzinam pra tudo. Sobre a caçamba de um caminhao, um pessoal fazia um comício pela aprovaçao das mudanças constitucionais que serao votadas no dia 25 - coisas do Evo Morales. No geral, a cena é a de uma cidade pobre. Tudo na Bolívia parece mal feito, inacabado. Em muitos lugares nao há calçadas, todas as lojas sao pequenininhas, apertadinhas, feinhas, desde o guiche das empresas de onibus até os hotéis. Muita sujeira por todo o lado, água suja escorrendo. Causa um certo impacto.

Atravessamos a rua e entramos em um albergue para tentar tomar um banho. Eu havia tomado no dia anterior, um banho frio na rodoviária de Corumbá, mas tinha sido o único. Alugamos um quarto por algumas horas. O banheiro era coletivo, frio e com baratas, mas depois de 16 horas no trem da morte era um paraíso. E eu ainda encontrei alguns pesos bolivianos esquecidos na pia.

Banho resolvido, saí para comprar outra mochila de ataque (nao a grande, a pequena), já que a que eu havia levado tinha terminado de desintegrar no trem. Segunda liçao boliviana: aqui se pechincha pra tudo. Logo na saída doalbergue havia uma loja com umas mochilas penduradas. Eu perguntei o preço de uma - 40 bolivianos. Tá bom, vou levar. 35 para usted, respondeu a lojista. Ela tinha tanta certeza que eu iria chorar o preço que deu o desconto no piloto automatico, sem eu nem pedir.

Banho e mochila ok. Faltava o almoço. Pegamos algumas indicaçoes e fomos em um restaurante chamado Rodeo onde tivemos um dos melhores almoços da viagem: um churrasco argentino com uma salada boa e um arroz intragável que parecia sopa (a primeira das nossas surpresas com a peculiar cozinha boliviana). Pra coroar, tomamos muitas Paceñas geladas, a cerveja boliviana, muito boa por sinal.

Demos uma volta e chegamos atrasados à rodoviária. Mesmo que o onibus saísse 2:30, eles queriam que tivéssemos chegado meia hora antes. O homem que nos vendeu as passagens estava furioso com a gente e de cara já avisou que o onibus nao iria mais direto para La Paz, mas só até Cochabamba, pela estrada alternativa. Nos cobrou 80 bolivianos pela viagem e nos meteu dentro do onibus onde havia, uai, uma equipe de televisao fazendo entrevistas.

O que eles entrevistavam eu conto depois.

Hasta lluego.


Pessoal no Rodeo. Arroz intragável, churrasco maneiro e Paceña gelada.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Cap II - O trem da morte

Os dias vao se passando e acontecem mais coisas do que eu tenho tempo (e interesse) de escrever. Já faz uma semana que cheguei correndo em Puerto Suarez, mas nem tanto assim. Acontece que o horário de partida do trem, quatro e meia, era no horário boliviano, uma hora atrasado em relaçao a Cuiabá (continuo sem os acentos), e duas em relaçao a Brasília.

Antes do trem tivemos que passar pela fronteira e carimbar o passaporte. Meu primeiro carimbo de passaporte foi boliviano, eu que nunca fui nem para o Paraguai. Pela primeira vez me vi em um lugar em que nao se falava portugues. Passamos e fomos até a estaçao.

Para o bom mochileiro, o trem da morte é quase uma entidade, uma pessoa. Faz parte da viagem. Eu mesmo recusei ir e voltar de aviao, e de graça, para passar pelo trem. E o bicho veio chegando, aquele monte de metal, sujeira e bolivianos. Tirando a señora que já em Puerto Quijarro me trocou reais por bolivianos, este seria meu primeiro contato com o povo.

Nossa poltrona era do último vagao, categoria Super Pullman (a melhor de todas, que eu sou mochileiro mas nao sou besta). Antes de sair sobem ao trem um casal com a filha e mais um (acho que o tio da menina). Estao afobados, olham pra cá e pra lá, eu nao entendo o que eles dizem. Voltam-se para mim e me pedem para trocar de lugar para que o tio possa viajar ao lado da menininha. Dessa vez eu topo e4 eles me agradeecm com um "você é brasileiro nao é? os brasileiros sao diferentes". Temos fama de boa praça.

No meu novo lugar, sento-me ao lado de outro time com criança, dessa vez a mae, boliviana, a avó e um menininho que viajam no bnco de trás. Sao indígnas e acho engraçado que a mae, que está ao meu lado, leia Quincas Borba.

Nada disso me incomodou. Ao contrário, tomei a primeira liçao sobre a Bolívia. As crianças bolivianas nao choram. Sao extremamente agradáveis, sorridentes, falantes. Conversam com todos. Há algo de diferentes nas crianças bolivianas, um segredo só delas, que nao pude descubrir.

Além do Machado de Assis, outra produçao brasileira nos acompanhou durante a viagem: o filme Tropa de Elite, legendado em español. Calla-te. Meu banco nao se reclinava direito, ou reclinava, mas nao travava, e chacoalhei durante 16 horas. Andei pelo trem, dormi, e aumentamos a trupe com uma gauchada. Na manha seguinte estávamos em Santa Cruz de la Sierra.

Olhando agora, a descriçao dessa viagem está me parecendo pobre e falha, mas como está acabando a minha hora aqui em Puno, no Peru, teremos que nos contentar com isso mesmo.





O lendário trem da muerte. Nosso vagao era essa aí atrás, o último.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Machu Picchu cap. I - de Prudente à Corumbá


Neste cyber-sem-café de La Paz, vou começar a contar a história da minha viagem que começou a 4 dias e ainda nao acabou (nao sei onde fica o acento deste teclado).

Saí de Prudente 19:40 horas do dia 5, segunda-feira. Entrei no ônibus, procurei meu lugar, sentei. Nisso, um garoto que estava atrás pergunta: você se importa de sentar lá atrás para que eles dois venham sentar aqui? Puts, lá atrás, até Corumbá? Olha, eu me importo sim. Respondi na cara da pau, um cara chato. Lá atrás chacoalha demais... Sentei e ouvi a conversa desse garoto, do vizinho dele, e mais de uma outra dupla que estava ao lado, e de mais um. Adivinha pra onde eles estavam indo? Acertou.

A viagem que começou solitária nao ficou assim por 5 minutos. Só naquele ônibus éramos 8 rumo ao Peru. Pessoal universitário, 18 ou 19 anos. Logo enturmamos. Em um posto no Mato Grosso do Sul, encontrei um amigo do meu pai, fazendo o que lá eu nao sei. E depois direto para Corumbá onde estava o meu primeiro problema: conseguir a carteirinha de vacinaçao internacional e encontrar o Ney.

O Ney é o operador que ficou de me vender as passagens para o trem da morte. O trem da morte (nao encontro as aspas) é o trem que sai de Puerto Suarez, já na Bolívia, e vai até Santa Cruz de la Sierra (deve ser esse o trem da música do Almir Satter). Antes de sair de Prudente ouvi dizer que as passagens estavam difíceis porque o trem havia ficado dois ou três dias sem sair. Na madrugada do Domingo, esse tal de Ney se ofereceu para comprar a passagem com antecedência. O custo fica quase o dobro do preço e no final haviam passagens até uma hora antes do trem partir, mas no meu caso o Ney foi providencial porque eu só cheguei na estaçao em cima da hora. Tudo por causa da carteirinha...

A carteirinha internacional de vacinaçao, que eu ia tirar em SP e nao tirei, atesta internacionalmente que voce é um cara vacinado, neste caso, contra a febre amarela. Eu já havia tomado a vacina de febre amarela no começo de 2008, entao só precisaria trocar minha carteira comum pela internacional. Mas nada é tao simples...

Chegando no posto da Anvisa, tinha uma fila de 10 pessoas. Eram 10 e meia e o posto fecharia 11 horas. Tive que esperar para a tarde e, para pegar lugar na fila, mofei na porta da Anvisa, deitado no chao e lendo George Orwell. Às duas da tarde estava eu na porta, mas nada do guarda abrir. É que o fuso-horário de Corumbá é uma hora atrasado ao de Brasília, entao toca esperar mais uma hora. Fui o primeiro a ser atendido. DOIS funcionários públicos que tem 3 horas de almoço levaram 10 minutos pra preencher uma ficha pela internet e imprimir a minha carteirinha.

Nisso já sao 3 e cacetada. O trem sai 4 e meia e ainda temos que encontrar o Ney, pegar as passagens, atravessar a fronteira com a Bolívia em Puerto Quijarro e ir até Puerto Suarez para pegar o famoso trem.

Pessoal esperando o Ney em Corumbá.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Saindo para Machu Picchu

E eu estou uma pilha de nervos.

Inquieto.

Ansioso.

Muito mais do que esperava.

Fezes.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Canto

Em minha vida, essa casa imensa em que
Muitos vêm reclamar posse,
Reservo a ti um cantinho
(o que eles não sabem
é que é o meu preferido).

São Silvestre - parte 11855

Resultado final da corrida: 15 km em 01:47:33 (11855º lugar).

Ah! tem também 5 bolhas e dois joelhos inutilizados. Põe na conta.