sexta-feira, 30 de maio de 2008

Fragmento

Buscava em tudo o que é lugar. Religião, amor, trabalho, meus filhos. Mas o diabo é que a vida não faz sentido e Deus quando nos expulsou do Éden sentenciou a Adão: "Passarás os dias a buscar inutilmente os motivos de uma vida que é, por definição, inútil".

domingo, 25 de maio de 2008

A volta do irmão do irmão do Henfil


Um dos livros que mais me surpreendeu (positivamente) foi Diário de um Cucaracha do cartunista brasileiro Henfil. O Henfil é aquele mesmo da música que sonha com a "volta do irmão do Henfil" e o "irmão do Henfil", no caso, é o sociólogo Herbet de Souza, o Betinho (que depois ficou célebre pela campanha do Natal sem Fome). Tanto o Henfil como o Betinho eram hemofílicos e ambos morreram de AIDS, ainda jovens, contaminados nas constantes transfusões de sangue que precisam fazer por causa da hemofilia.

Mas sobre o livro: é um apanhado de cartas escritas no início dos anos 70 pelo próprio Henfil que havia ido tentar a sorte nos EUA por dois motivos: tratar-se da hemofilia e divulgar mundialmente os seus personagens. Não vemos as respostas, apenas as cartas enviadas dos EUA para o Brasil e aos poucos estas cartas vão tecendo a aventura americana do cartunista.

No início tratam da chegada nos EUA. Tentando aprender o inglês, entra em contato com brasileiros e fala sobre suas impressões sobre o povo amerciano - a sociedade, os guetos, o racismo. Tenta justificar a ambição de fazer sucesso nos EUA - já era consagrado no Brasil, trabalhando em diversos jornais e no Pasquim - e reproduz no livro uma entrevista dada aos companheiros de Pasquim - Ziraldo, Millôr Fernandes, Jaguar, etc. - onde explica sua decisão.

Conforme o diário vai se desenvolvendo, deixa de ser um blog e vai virando um romance.

Conseguirá Henfil publicar nos EUA e se tornar mundialmente famoso? Como os americanos receberão os personagens Fradim, Graúna, Zeferino? O nosso talentoso herói latino conseguirá vencer no mercado americano onde apenas os melhores sobrevivem? Conseguirá o Fradim bater o Pato Donald?

Como eu nasci em 1981, pude ler o "romance" sem saber o final da história...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Jefferson Péres

Hoje faleceu um dos poucos políticos que mereciam algum respeito, o senador Jefferson Péres. Não sei muito sobre a sua biografia, mas eu me lembro bem dele em dois momentos.

No caso mensalão - cujos depoimentos eu acompanhei como se fosse uma novela - no auge da desgracera, acho que durante um depoimento do Roberto Jefferson, não tenho certeza, os deputados e senadores costumavam fazer perguntas cada vez mais longas e mais burras, só para aparecerem bastante tempo na televisão. Quando chegou a vez do senador Jeferson Pérez, ele estava abatido, desanimado e incrédulo. Pegou o microfone e citou a letra de um fado da Amália Rodrigues. "Tudo isso existe, tudo isso é triste, tudo isso é fado" e completou "eu não quero perguntar mais nada não". Perguntar o que? Tava tudo óbvio ali, todo o esquema, todo o mundo sabia de tudo, não tinha mais o que perguntar, só lamentar.

Tempos depois ouvi um discurso seu no senado. Estavam aprovando uma lei tal que eu não me lembro, mas ele disse mais ou menos isso: estava com setenta e tantos anos e que era seu último mandato. Estava livre de agradar ao eleitorado, mas tinha que respeitá-lo, e podia dizer o que pensava - que o povo brasileiro não sabia votar, que votava errado, que isso, que aquilo, blá blá blá, descascou a alma dos senadores, falou tudo o que a gente tem vontade de dizer. Talvez tenha sido na volta do Collor ao senado - na saída da Heloísa Helena - será? Minha mente que reconstrói o passado gosta de pensar que sim...

Enfim, agora o senador vai cantar fado em outras pradarias. Tomara que ele vá pro céu e que Deus não tenha condenado todo o senado ao inferno coletivamente, mas que analise caso por caso. Esse não merecia...

ps: Não era a cara do Beavis?

domingo, 18 de maio de 2008

Caso de Passarinho

Estava em uma sala na universidade quando pela janela basculante entrou um passarinho. Uma andorinha, disseram. É difícil para qualquer pássaro sair por uma janela basculante. Eles não sabem fazer o movimento de descer e subir, aliás, ter que descer para depois poder subir novamente é um movimento que a gente também costuma não entender mas enfim. O fato é que a andorinha entrou na sala e não podia sair. Pousou numa calha e dava voltas, fazia evoluções. De vez enquando olhava o céu, mirava as nuvens e POW, se estatelava no vidro.

Do lado de fora apareceu uma outra andorinha. Piava do lado de lá. Voava em frente da vidraça. Vem pra cá! Mas mesmo assim, a primeira não achava a saída. Voa daqui, vao de lá e, lógico, não só a primeira não saiu, como a segunda andorinha entrou também. Era menor do que a outra. Alguém disse que eram um casal e que a segunda era a fêmea, primeiro porque era menor, segundo porque um macho não se sacrificaria assim...

Machismos e feminismos a parte, fui embora e deixei as duas andorinhas lá. Abri todas as janelas, repeti algumas vezes, desce e sobe, desce e sobe, desce e sobe, e deixei as andorinhas na sala. Voltei no dia seguinte. Havia cocô de passarinho nas mesas e apenas uma andorinha havia sobrado. De olho, achei que era a menor, a segunda, suposta fêmea. Abandonada, coitada. Uma andorinha só que, como se sabe, não faz verão.

sábado, 17 de maio de 2008

111 maneiras de tristeza

1 - Triste como um cisne de feltro (Paulo Mendes Campos)

2 - Triste como um pé de sapato

3 - Triste como uma possibilidade

4 - Triste como um cachecol

5 - Triste como uma folha em branco

6 - Triste como um realejo

7 - Triste como um palhaço

8 - Triste como um vira-lata

9 - Triste como um lenço bordado

10 - Triste como uma demolição

domingo, 11 de maio de 2008

Consultoria sentimental-futebolístico

Esta semana o leitor Maurício escreveu uma carta dizendo que sua esposa está, bem, "saltando" a cerca, mas que mesmo assim não quer terminar o relacionamento e pergunta o que fazer.

Caro Maurício. Sabemos que só existe uma possibilidade de um jogador atuar por dois times diferentes ao mesmo tempo: ele foi convocado para a seleção. Então, é preciso que você saiba, exatamente, por onde é que sua mulher anda jogando por aí.

Caso ela esteja trocando o seu timinho pela seleção brasileira, não há o que fazer. Todos reclamam mas é regra da FIFA, foi convocada, já era. Neste caso, por seleção brasileira consideramos o Chico Buarque, o Antônio Fagundes ou o Reinaldo Gianechinni. Não há o que fazer, sinto muito.

No entanto, ela pode estar trocando a sua camisa pelo time do vizinho, ou um time do mesmo nível ou até, isso é possível, um timinho mais fraco que o seu. Os motivos podem ser vários. Ou os outros cartolas ofereceram um salário maior (é o mais comum) ou então o time de lá joga mais que o seu... De qualquer forma, só há uma coisa a fazer: jogador rebelde fica na reserva. Comece tirando dos jogos principais, depois tire do treinamento. Se ela amar a sua torcida vai correr em dobro pra voltar pra campo, se não, vai pedir pela imprensa pra ser vendida e daí meu amigo, bom, daí é adeus mesmo...

sábado, 10 de maio de 2008

Beatriz

Tomem o que quiserem
Beijem, briguem, saltem por sobre os muros
Saiam para a rua, cantem refrões
Façam cartazes, enfrentem a polícia
Passeiem no parque, dêem-se as mãos
Xinguem, ofendam-se
Pintem as calçadas
Leiam o que quiserem
Assistam a um filme
Vejam a Lua, saiam no Sol
Trabalhem, descansem, atrapalhem, compliquem, expliquem
Capotem, movam-se, atenham-se, dispersem-se
Pouco me importa o que fizerem
Não me digam, por favor
Hoje passarei o dia
Pensando no meu amor

ps. poema de 2006 sobre "Beatriz" - de Chico Buarque, interpretado por Milton Nascimento

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Professor Rogério - Consultoria sentimental-futebolística

O amor é uma caixinha de surpresa e o futebol é cego. Todo o mundo sabe que não há nada mais parecido com o amor do que o futebol, e nada mais parecido com o futebol do que o amor. O torcedor é um exemplo, e torcer para um time de futebol é como amar alguém: você começa a ver um jogo aqui, outro ali, não liga muito, e quando vê está de camisa, faixa e bandeirinha xingando o juiz na arquibancada, completamente doente.

Uma conquista amorosa, por sua vez, é como uma partida completa. Tem hora de atacar, tem hora de se defender, mas quase sempre não adianta nada ficar tocando de lado: o que vale é bola na rede. E há também o gol contra, que é quando você, sozinho, dá conta de estragar o resultado do seu time ou, no caso, o seu próprio.

Assim, está aberto o meu Consultório Sentimental-Futebolístico que resolverá os questionamentos dos leitores pela psicologia da pelota.

Apita o árbitro! Estááááá valendo...

quinta-feira, 1 de maio de 2008